Recital de Poesia

“Écloga de Jano e Franco”

Durante o mês de Setembro, as palavras de Bernardim Ribeiro fazem-se ouvir pela voz de Roberto Terra. No Parque do Fontelo, todos os domingos, CRETA apresenta o recital de “Écloga de Jano e Franco”.
Uma écloga é, por definição, um poema que tem como cenário a natureza. A écloga de Jano e de Franco conta-nos a história de amor de Jano, que vê cumprir-se um dia à beira do Tejo uma profecia que lhe tinha sido destinada anos antes. Conta-o a Franco, que lhe canta uma canção dedicada aos “desgraçados como nós”. Pois é, estes dois pastores, ali à beira do Tejo porque fugidos da miséria que experimentavam nas suas terras – Jano era alentejano, Franco vinha de Coimbra – são mote para Bernardim Ribeiro nos apresentar ideias sobre uma espécie de sentido para a vida. Alguns versos parecem axiomas que podem ajudar uma pessoa a organizar a sua vida. E, no final, uma coisa se torna evidente: não se atribui a écloga aos dois por acaso, é uma forma de valorizar a companhia. Vivemos acompanhados, e nossa companhia nos ampara. Talvez essa seja uma das importantes mensagens deste poema. Até porque, dizem os estudiosos, Jano é uma variação de Bernardim, e Franco uma sombra de Sá de Miranda. Os dois poetas eram, na vida fora da poesia, grandes amigos.

“É trigo loiro, é além Tejo, o meu país neste momento”, cantava Simone, em 1969, num poema de Ary dos Santos. Não é com estes versos que Bernardim Ribeiro abre a sua “Écloga de Jano e Franco”, mas podia ser. Na verdade Bernardim começa o seu poema de uma forma muito mais típica da oralidade tradicional: “dizem que”; e apresenta-nos uma história de amor malfadado, entre Jano e Joana. Ou melhor, de Jano para Joana. Mas, tal como o encontro entre os dois, também a secção do poema dedicada a este amor é efémera e Bernardim rapidamente transforma os seus versos numa reflexão mais intrínseca de problemáticas que lhe eram muito próximas. Jano é, afinal, um espelho do próprio poeta.
Cada palavra de Bernardim está repleta de duplos, triplos sentidos e olhar para elas agora, em 2019, é um exercício de dissecação, de descoberta de cada camada, cada subtileza, cada delicadeza. É não só um desafio, mas efectivamente um prazer. Bernardim fala-nos de amor, de amizade, mas fala-nos também de dúvida, de terra, de Deus, de fuga, de pés, de raízes, de casa, desta tragédia tão portuguesa a que chamamos fado.

– Roberto Terra

Contexto histórico-social da “Écloga de Jano e Franco”

Correndo o risco de me estender, acho importante analisar, ainda que brevemente, as circunstâncias em que Bernardim Ribeiro escreveu e mais tarde publicou este poema. Recuemos então cinco séculos.
Bernardim publica a “Écloga de Jano e Franco” em 1554 (juntamente com outras obras suas), na então famosa oficina tipográfica de Abraão Usque. À partida um pormenor para quem vem assistir a um recital de poesia, mas um dado importante para melhor se absorverem estas palavras. Pouco se sabe da vida de Bernardim. Mas sobre Abraão Usque sabe-se que, judeu português, exilado em Itália, contribuiu para a tipografia portuguesa quinhentista com, pelo menos 29 livros, entre 1554 e 1559, todos eles ligados à matéria judaica. É pouco provável que Bernardim tenha sido uma excepção, o que leva a uma identificação quase inevitável entre o poeta e criptojudaísmo da Península Ibérica e a perseguição aos judeus no Portugal manuelino.
Estes dados conduzem-nos a novas leituras, por exemplo, da profecia que Piério apresenta a Jano: “Vejo-te sem liberdade/de tua terra desterrado/e mais de tua vontade”; e oferecem à écloga uma maior dimensão. Bernardim, na sua mestria, apresenta-nos este Portugal, este “além Tejo” seco, camuflado de drama pastoril.

No Fontelo, Viseu

Conheça o texto

Disponibilizamos este texto para todos aqueles que assistiram à récita e o querem revisitar. É um texto difícil de ouvir – mesmo para ler, os quinhentos anos que nos separam trouxeram alguma transformação à própria língua. O que na verdade, torna ainda mais encantador.