A partir de agora, as cartas de CRETA vão acompanhadas da sua leitura. Uma outra forma de ficar a saber o que se passa neste labirinto. Hoje, poderão também subscrever a este conteúdo no Spotify e na Anchor. Em breve estaremos noutras plataformas.

Qualquer pessoa que se tenha sentado algum dia em frente a uma folha em branco com a missão de escrever alguma coisa sabe o que é isto de medir as palavras. As voltas que um texto dá para se fazer uma frase. A dificuldade de saber como colocar o que pensamos nas palavras certas.
Um dia, num artigo chamado “A Evolução do Pensamento”, dei com a ideia do professor Vladimir Dmitrievich Shadrikov, investigador e académico russo, de que a tradução do pensamento em palavras é um exercício criativo. De que transmitir um pensamento é parecido com descrever um lugar. É preciso como que inventar as palavras. E que ao pensamento que vem antes de haver palavras que o traduzam podemos chamar protopensamento.
Quando uma ideia é muito clara, mas não sabemos como a transmitir, bom, estamos na zona do protopensamento, segundo o professor Shadrikov.
De certa maneira, parece-me que é a esta procura que assistimos num solilóquio. Medir as palavras – uma ideia cara, esta. Dar às palavras uma medida, um peso, um valor. Reconhecer o seu poder.
Um solilóquio tem esta força. Senão vejamos: proponho-vos um exercício de imaginação:

(Som de ondas.)

Estamos a olhar do alto para uma costa rochosa, como se estivéssemos num precipício. Não há muita definição, a imagem divide-se em dois círculos luminosos, intermitentes; e as ondas a avançar sem piedade contra as rochas negras estão desfocadas.
Depois, vemos um par de olhos. Eles é que olham para a costa, eles é que vêem as ondas lá em baixo.  Eles é que estão neste precipício.
A imagem das ondas foge-nos.
E, então, uma interrogação…
“…To be or not to be, that is the question…” (“Ser ou não ser, é isso a questão”)
Agora sim. A imagem torna-se clara, vemos uma pedra grande, na praia de pedra escura. Vemos uma onda como que abraçando a pedra. Depois, vemos um homem debruçado sobre um parapeito. Loiro, em pose, um anel em cada mão, as mangas da camisa largas, tem um punhal embainhado à cintura.

Está a três quartos, foca o olhar em lugar incerto.
Parece estar só.
“… And by a sleep to say we end |The heart-ache and the thousand natural shocks |That flesh is heir to: ‘tis a consummation |Devoutly to be wish’d. To die, to sleep;…”
Estamos a olhar para Laurence Olivier, a ouvi-lo dizer o famoso monólogo de Hamlet, sobre ser ou não ser. Vê-lo nesta circunstância torna claro o que se passa com a personagem. Ao perguntar “ser ou não ser”, Hamlet está a pesar o seu suicídio.
E em determinado momento, ele desembainha o punhal.
Quando o faz, Hamlet fecha os olhos, fecha a boca. O monólogo continua como se ouvíssemos o seu pensamento. A cena cresce, com o nosso olhar cada vez mais próximo da cara do príncipe, com a argumentação que faz cada vez mais determinante para o gesto derradeiro.

Mas heis que uma ideia…
“… perchance to dream…”

Afastamo-nos, os olhos abrem-se. Hamlet está deitado no parapeito. O punhal na mão.
O tom do discurso muda. Deixou de fazer sentido, a morte. E nós temos a sensação de que ele percebe que não é esta a solução para a sua tragédia.
Hamlet assume uma postura hirta, aparentemente racional, céptica, desiludida. E, sem grande entusiasmo, ele afasta-se do precipício.
“… And enterprises of great pitch and moment |With this regard their currents turn awry |And lose the name of action.”

 Esta é a descrição de um excerto do filme “Hamlet”, dirigido e protagonizado por Laurence Olivier em 1948 a partir do texto com o mesmo nome, escrito por William Shakespeare em 1600.
Solilóquio é uma palavra estranha, mas facilmente se desmistifica. No fundo serve para nomear um texto em que a personagem fala sozinha.
Como eu, agora. Se, por um acaso, dessem comigo a fazer esta gravação, o que veriam era um rapaz sozinho numa sala, com auriculares nos ouvidos, muito concentrado a ler para um microfone.
Mas há uma coisa bonita (e útil) num solilóquio: assistimos a alguém que diz em voz alta uma série de argumentos sobre algo por que está a passar; ou sobre alguma coisa que está a sentir; ou uma ideia que tem.
Em todos os casos, parece-me que um solilóquio é o sintoma de um pensamento. E isto entusiasma-me porque me parece uma espécie de ensaio para o diálogo ou para a acção. Como se assistíssemos ao momento do estratega que prepara uma batalha, ou faz o balanço de uma derrota ou de uma vitória.
Quando penso em solilóquios, é o nome de Shakespeare que me vem à cabeça. Assistimos a tantos momentos destes nas suas peças. Momentos de intimidade entre a personagem e o público.
Ouvimos este que é, provavelmente, o solilóquio mais conhecido da história do Teatro, mas propunha ler-vos a primeira fala da peça Ricardo III, um outro solilóquio, numa tradução feita por Eduarda Dionísio, Maria Adélia Silva Melo e Luis Miguel Cintra, editada pela Difel.

Ouve-se o livro ser folheado.
Lê primeira fala de “Ricardo III”.  

O solilóquio com que Ricardo abre a peça é o exemplo perfeito do caminho, e da exposição, de um pensamento.
Este homem é um estratega, e sabemo-lo porque o vemos medir os seus planos. E ao mesmo tempo, podemos adivinhar a sua tragédia, a marca que o define, a sua deformidade, a rejeição de que é alvo – os cães que ladram quando passa…
Parece-me que este solilóquio sustenta a contenção nos diálogos que se seguem. As palavras saem medidas porque houve este momento.
Começar uma peça com o balanço das intenções do protagonista feito pelo próprio, parece-me engenhoso. Entramos como que no meio da festa. E convidados pelo protagonista. Como com Hamlet, somos cúmplices, já, das suas intenções.
A partir de agora, podem falar por meias palavras, porque fizeram de nós bons entendedores.

Pela minha parte, normalmente é a caminhar que me ponho em solilóquios. É quando arrumo ideias, refaço discussões, planeio uma argumentação, vislumbro a maneira de traduzir por palavras os pensamentos.
Caminhar ajuda-me a pensar.
Os meus solilóquios na vida real, nunca acontecem num precipício, ou na soleira de uma porta, ou na sombra de uma esquina. Acontecem, muito banalmente, enquanto caminho Avenida Almirante Reis abaixo, ou quando estou a caminho do metro – medindo as palavras à luz clara da manhã…

Eu sou o Guilherme Gomes, e esta foi a décima carta de CRETA. Despeço-me, lembrando que podem responder a esta mensagem através do nosso email creta@teatrodacidade.pt.
As músicas usadas nesta gravação vêm do site bensound.com.
Obrigado por ouvirem; até ao próximo mês.