Já Não Estamos Lá Mas É Como Se Nunca Tivéssemos Saído

O Lugar de Onde se Ouve - Apresentação de episódio

Já Não Estamos Lá Mas É Como Se Nunca Tivéssemos Saído

Poemas de

Mochos
no Telhado

Quando

18 Outubro, 2020
16h00

No capítulo final de “Já não estamos lá mas é como se nunca tivéssemos saído” pretendemos que a escuta do podcast aconteça no lugar que inspirou a sua criação. Será pedido ao público que se faça acompanhar do seu telemóvel e auriculares, para que da posição de espectadores/escutadores possam partilhar o espaço com as personagens da história. A escuta do podcast acontece na Mata do Fontelo e o ponto de encontro é o portal de entrada.

Os episódios

Mata do Fontelo, Viseu

Recital de Poesia: “Um passo”

Recital de Poesia

Um passo

Poemas de

Samuel
Beckett

Quando

6, 13, 20, 27
Setembro, 2020

Inspirado pelo universo de Beckett, este recital surge a partir da obra deste autor e da noção de “desolação”.
Pois bem, estamos num local árido, onde a vida parece não prosperar – mas próximo de um “oásis” -, e vemos uma personagem numa cadeira, da qual não sai. Não consegue sair, não quer sair, não a deixam sair…? Bom, o que sabemos é que tem consigo uma pequena mala: um kit de sobrevivência. Trancado, convém referir.
A chave está precisamente a um passo. O suficiente para se deixar cair da cadeira e apanhá-la. Não o faz. É permanentemente confrontada com essa possibilidade e não o faz.
Fruto de um problema de comunicação (ou “transtorno” de comunicação, dependendo do grau de seriedade com que queiramos encarar a questão), todo o seu discurso é uma tentativa de criação de diálogo com um objeto que nunca lhe irá verdadeiramente responder.
E quanto ao que poderá vir a seguir a este aparente “desespero tranquilo”, Beckett deu-nos uma ou outra pista: “When you’re in the shit up to your neck, there’s nothing left to do but sing.”!

– Joana Martins

Sobre Joana Martins

Viseu, 1994. Joana Martins é intérprete e criadora de teatro, e docente de expressão dramática.
Em 2015, licenciou-se em Teatro e Artes Performativas, pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, onde trabalhou com encenadores como Filipe Crawford e Marcantónio del Carlo. Em 2017, tornou-se mestre em Teatro – especialização em Encenação e Interpretação – pela Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo, onde desenvolveu o seu projeto de investigação “La Petite Mort”, uma cocriação com Diogo Freitas, sobre o silêncio como material cénico.
Co-fundou a estrutura colaborativa BANQUETE, de investigação e criação multidisciplinar em artes, da qual é investigadora e criadora associada.
Para televisão, já fez alguns trabalhos em publicidade e co-apresentou o programa “MTV Back to School” (2016).
Participou na websérie “Diários de uma Quarentena” (de Diogo Freitas e Filipe Gouveia, 2020) e em alguns videoclips.
Em Teatro, fez os seguintes trabalhos: “Isto não é uma praxe” (de Marcantónio del Carlo, 2014), “AD LUCEM…” (criação coletiva: BANQUETE, 2019), “VERSA” (criação coletiva: BANQUETE, 2019), “Os Guardas do Museu de Bagdad” (a partir da peça de José Peixoto, com encenação de Graeme Pulleyn), com os formatos de leitura encenada (2019), espetáculo oficina (2019) e espetáculo (2020), “Democracy Has Been Detected” (de Diogo Freitas e Filipe Gouveia, 2020), “Esperar até Abril é morrer” (de Gabriel Gomes, 2020), “Dilúvio” (de Diogo Freitas e Filipe Gouveia, 2020) e o projeto “Diálogos” (criação com Joana Pupo, 2020).

No Campo da Feira Semanal, Viseu

Recital de Poesia: “Ocupamos lugares transparentes”

Recital de Poesia

Ocupamos lugares transparentes

Poemas de

Maria
Gabriela Llansol

Quando

6 Dezembro, 2020

Diáfano.
Vítreo.
Hialino.
Confesso-vos que às vezes trocava o verde de um semáforo e dizia:“vai ficar azul”. Não sei se seria engano ou se acreditava que seria possível mudar as cores do mundo. Dizia-o com tanta convicção que um dia parada num semáforo disse em voz alta “Vai ficar azul”. E ficou. Já acreditava que se pedisse muito uma coisa ela acontecia, assim passei a acreditar mais que o mundo nos deixa seguir em frente quando sonhamos em azul.
Neste momento é tarde e tiro o chapéu que coloquei há pouco na cabeça. Assim, consigo alcançar Maria Gabriela Lhansol com maior perspectiva, desprotegendo-me. Descubro na sombra a transparência da sua grandeza. Há sonho, misticismo, liberdade, encantamento e vida, ou melhor, muitas vidas. Assim o é, não incolor, mas transparente. Aqui, Lhansol se mistura numa só cor, entre nós e entre as suas palavras libertando-nos. Ultimamente, quando me deito Lhansol fica a tracejar os meus pensamentos. Nunca me apareceu num sonho, o que sobrou mais espaço para a imaginação. E ao dar voz a frases suas, levanto-me entre os meus vários corpos e espero-a num transparente azul. Talvez.

“Principiava
Esse peso por ser levíssimo mas, se esperasse, um olho
Azul precioso abrir-se-ia. Era o desenho da palavra."
Maria Gabriela Lhansol

– Gi da Conceição

Sobre Gi da Conceição

Gi da Conceição (Liliana Rodrigues) é natural de S. Pedro do Sul (1986) e licenciada em Teatro e Educação pela Escola Superior de Educação de Coimbra.
É Directora Artística da Companhia de Teatro Perro (desde 2017), docente do curso Artes do Espectáculo / Interpretação da EPTOLIVA (desde 2017), formadora do Instituto de Emprego e Formação Profissional (desde 2016).
Como encenadora assinou as criações Germana, a begónia, Passagens secretas, Casa de hóspedes, Prosopopeia do Vinho e CICARE.
Tem em funcionamento Oficina de Teatro em Tábua, São Pedro do Sul e Guarda.
Como atriz participou, por exemplo, em Madalena (2020, Teatro Viriato – TNDMII/ Sara de Castro), Conta-me como foi (6ª temporada, 2019/ RTP), Maio (2019 – videoclipe de Luís Severo), Borralho (2019, Teatro Experimental do Porto/ Gonçalo Amorim), Do Demo (2016, Teatro Viriato/ Nuno Cardoso), Esta noite improvisa-se e Baal (2015, Teatro Expandido/ João Sousa Cardoso), Espanca – Eu não sou de ninguém (2015, Conservatório de Voz e Artes Performativas do Porto/ João Miguel Mota), Heaven ou Ainda: Tu (2013, Teatro Viriato/ André Mesquita), Que o Diabo seja Cego, Surdo e Mudo (2011, ESEC/ André Paes Leme), Tomai lá do O’neill (2011, ESEC/ Filomena Oliveira), A Comédia do Verdadeiro Santo António que Livrou seu Pai da Morte em Lisboa (2007, GEFAC).
Aprendeu, entre outros, com António Fonseca, Manuel Guerra, Clóvis Levi, António Mercado, Ricardo Correia, Miguel Seabra, Nuno M. Cardoso, Hélène Beauchamp, Simoni Boer, João Henriques, Nuno Cardoso, José Rui Martins, André Paes Leme, Filomena Oliveira, João Sousa Cardoso, António Simão, Jaime Gralheiro. Contracenou com Carla Chambel, Luís Ganito, Daniel Martinho, Adelaide Teixeira, Ana Brandão, Carla Galvão, Crista Alfaiate, Madalena Almeida e Paula Só, Anabela Brígida.

Antiga "A Vidreira", Viseu

Recital de Poesia: “Regar a terra”

Recital de Poesia

Regar a Terra

Poemas de

Sophia de Mello
Breyner Andresen

Quando

5, 12, 19, 26
Julho, 2020

A varanda do sótão, o lugar das longas distâncias e dos pensamentos saltitantes, onde se podem observar as sombras a mudarem de lugar e as nuvens, nos dias em que as há, a confundirem-se umas com as outras à medida que o tempo passa. Talvez o lugar de onde se consiga avistar algumas das roseiras que o conto nos fala, ou um rio. A importância do silêncio. Há uma cadeira, onde estou sentada neste momento, rodeada de vasos de vários tamanhos com plantas plantadas há dias suficientes para já não me recordar exatamente quantos. Rego-lhes a terra num gesto de cuidado, não quero que se tornem numas daquelas plantas esquecidas – como algumas já o anunciam ser. A terra deve ficar regada o suficiente para as aconchegar de forma a que se mantenham duradouramente verdejantes. Nunca a mais, nem a menos. Delicadamente transplanto a vida para um dos vasos e assim entramos neste conto, no momento em que as personagens que o habitam já vão no meio da vida. A viagem de que Sophia nos fala, também nós a fazemos. E é do monte, numa espécie de vaso cheio de terra, um lugar onde nos tornamos ainda mais pequeninos, que vamos poder guardar na memória a importância de ir à varanda regar a terra.

– Sónia Teixeira

Sobre Sónia Teixeira

Iniciou o seu percurso em 2012 no KCena – Projeto Lusófono de Teatro Jovem no Teatro Viriato, onde se manteve até início de 2015. Nesse mesmo ano, entra para a Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo, no Porto, onde está atualmente a terminar a sua licenciatura em Teatro – interpretação. O seu percurso de formação tem tido uma grande inclinação para o teatro físico e o estudo de técnicas do corpo. Ao longo destes anos, o seu caminho tem-se cruzado com Graeme Pulleyn, João Branco, Marcio Meirelles (KCena), Guilherme Gomes e Sara Barros Leitão (Noite Fora), Radar 360º, Paulo Calatré e Dinarte Branco (ESMAE), Sónia Barbosa, Erva Daninha, Henry Raby, John Mowat, Joana Providência, Filipe Crawford, entre outros. O seu trabalho também se desenvolve na área da Pedagogia Artística sendo colaboradora regular de várias equipas que desenvolvem programas de intervenção dentro dos serviços pediátricos dos hospitais portugueses e associações que apoiam e promovem a criança. Como criadora destaca a Boneca de Pavlov para o Teatro Mais Pequeno do Mundo, com o qual colabora desde 2019.

Monte de Santa Luzia, Viseu

Recital de Poesia: “Imortais”

Recital de Poesia

“Imortais”

Poemas do

Período
Romântico

Quando

3, 10, 17, 24
Novembro, 2019

Onde

Casa das Águias
Viseu

Durante o mês de Novembro, a poesia Romântica irá ecoar na Casa da Águias. Com concepção e direcção de Fraga, a leitura cabe a André Teixeira, Francisco Poppe, Gabriela Coutinho, Loff Olufson, Rafael Lopes e Rita Camões.

Trata-se de uma recriação poética ou diálogos sobre o Romantismo, para leitores curiosos que não frequentam clubes de leitura oitocentistas.
Um poeta é um rouxinol que se senta na escuridão, e canta para se confortar da própria solidão com seus próprios sons. Os seus ouvintes são pessoas arrebatadas pela melodia de uma música invisível, que se sentem comovidos e em paz.

Todos os domingos, às 17h00, escutamos “imortais”.

O poeta caminha perseguido por ideias várias; ameaçado por ideias várias. O poeta caminha em busca do essencial, da fundação de uma luz que desenhe, nítida, a sombra das suas ideias várias. O poeta caminha a partir e na direcção dos seus mestres; e, como ciclo natural, é neles que se esconde a fundação dessa luz que desenha a nítida sombra das suas ideias várias.
Poderia ser assim explicada a narrativa de Imortais, como quem diz que aquilo a que assistimos é, no fundo, a resposta à pergunta “de onde vem um poema?”. Mas este recital é mais que a narração imersiva do gesto poético. Imortais é uma antologia. Cada sala, uma página; cada corpo presente, um sujeito poético feito pele e músculos e ossos e voz. Com a virtude de o fazer sendo fiel ao espírito do Romântico.
Os recitais de CRETA têm um objectivo motor: dar a conhecer vozes literárias, permitir por comparação o seu estudo, o discurso sobre as características de cada estilo, a vontade de aprofundar o conhecimento.

Também nos permite reconhecer que cada texto é um texto, e não se tratam todos os textos da mesma maneira. Seja pela linguagem, pela forma como o próprio poeta encara a poesia, ou pelo tema que se aborda, não se lê Ruy Belo como se lê Bernardim Ribeiro ou algum dos poetas do período Romântico. Tocamos, assim, em três estilos de escrita que pedem a quem os lê e a quem os ouve diferentes tipos de atenção. Tenho a esperança de que a apresentação destes recitais, e estas ideias partilhadas, possam catalisar o pensamento sobre estes assuntos.
A direcção deste recital ficou a cargo de Jorge Fraga, que também lê, com André Teixeira, Francisco Poppe, Gabriela Coutinho, Loff Olufson, Rafael Lopes e Rita Camões, poemas de Keats, Garrett, Leonor de Almeida (Marquesa de Alorna), Byron, Antero de Quental, e Shelley.
Que deste recital possamos sair um pouco mais atentos ao rouxinol que se senta na escuridão.

– Guilherme Gomes

Na Casa das Águias, Viseu

Recital de Poesia: “Écloga de Jano e Franco”

Recital de Poesia

“Écloga de Jano e Franco”

Écologa

Aquilino
Ribeiro

Quando

1, 8, 15, 22 e 29
Setembro, 2019

Onde

Fontelo
Viseu

Durante o mês de Setembro, as palavras de Bernardim Ribeiro fazem-se ouvir pela voz de Roberto Terra. No Parque do Fontelo, todos os domingos, CRETA apresenta o recital de “Écloga de Jano e Franco”.
Uma écloga é, por definição, um poema que tem como cenário a natureza. A écloga de Jano e de Franco conta-nos a história de amor de Jano, que vê cumprir-se um dia à beira do Tejo uma profecia que lhe tinha sido destinada anos antes. Conta-o a Franco, que lhe canta uma canção dedicada aos “desgraçados como nós”. Pois é, estes dois pastores, ali à beira do Tejo porque fugidos da miséria que experimentavam nas suas terras – Jano era alentejano, Franco vinha de Coimbra – são mote para Bernardim Ribeiro nos apresentar ideias sobre uma espécie de sentido para a vida. Alguns versos parecem axiomas que podem ajudar uma pessoa a organizar a sua vida. E, no final, uma coisa se torna evidente: não se atribui a écloga aos dois por acaso, é uma forma de valorizar a companhia. Vivemos acompanhados, e nossa companhia nos ampara. Talvez essa seja uma das importantes mensagens deste poema. Até porque, dizem os estudiosos, Jano é uma variação de Bernardim, e Franco uma sombra de Sá de Miranda. Os dois poetas eram, na vida fora da poesia, grandes amigos.

“É trigo loiro, é além Tejo, o meu país neste momento”, cantava Simone, em 1969, num poema de Ary dos Santos. Não é com estes versos que Bernardim Ribeiro abre a sua “Écloga de Jano e Franco”, mas podia ser. Na verdade Bernardim começa o seu poema de uma forma muito mais típica da oralidade tradicional: “dizem que”; e apresenta-nos uma história de amor malfadado, entre Jano e Joana. Ou melhor, de Jano para Joana. Mas, tal como o encontro entre os dois, também a secção do poema dedicada a este amor é efémera e Bernardim rapidamente transforma os seus versos numa reflexão mais intrínseca de problemáticas que lhe eram muito próximas. Jano é, afinal, um espelho do próprio poeta.
Cada palavra de Bernardim está repleta de duplos, triplos sentidos e olhar para elas agora, em 2019, é um exercício de dissecação, de descoberta de cada camada, cada subtileza, cada delicadeza. É não só um desafio, mas efectivamente um prazer. Bernardim fala-nos de amor, de amizade, mas fala-nos também de dúvida, de terra, de Deus, de fuga, de pés, de raízes, de casa, desta tragédia tão portuguesa a que chamamos fado.

– Roberto Terra

Contexto histórico-social da “Écloga de Jano e Franco”

Correndo o risco de me estender, acho importante analisar, ainda que brevemente, as circunstâncias em que Bernardim Ribeiro escreveu e mais tarde publicou este poema. Recuemos então cinco séculos.
Bernardim publica a “Écloga de Jano e Franco” em 1554 (juntamente com outras obras suas), na então famosa oficina tipográfica de Abraão Usque. À partida um pormenor para quem vem assistir a um recital de poesia, mas um dado importante para melhor se absorverem estas palavras. Pouco se sabe da vida de Bernardim. Mas sobre Abraão Usque sabe-se que, judeu português, exilado em Itália, contribuiu para a tipografia portuguesa quinhentista com, pelo menos 29 livros, entre 1554 e 1559, todos eles ligados à matéria judaica. É pouco provável que Bernardim tenha sido uma excepção, o que leva a uma identificação quase inevitável entre o poeta e criptojudaísmo da Península Ibérica e a perseguição aos judeus no Portugal manuelino.
Estes dados conduzem-nos a novas leituras, por exemplo, da profecia que Piério apresenta a Jano: “Vejo-te sem liberdade/de tua terra desterrado/e mais de tua vontade”; e oferecem à écloga uma maior dimensão. Bernardim, na sua mestria, apresenta-nos este Portugal, este “além Tejo” seco, camuflado de drama pastoril.

No Fontelo, Viseu

Conheça o texto

Disponibilizamos este texto para todos aqueles que assistiram à récita e o querem revisitar. É um texto difícil de ouvir – mesmo para ler, os quinhentos anos que nos separam trouxeram alguma transformação à própria língua. O que na verdade, torna ainda mais encantador.

Recital de Poesia: “um dia não muito longe não muito perto”

Recital de Poesia

“um dia não muito longe não muito perto”

Poemas de

Ruy
Belo

Quando

5, 12, 19, 26
Maio, 2019

Onde

Museu Almeida Moreira
Viseu

A partir de dia 5 de Maio de 2019, foi possível ouvir palavras de Ruy Belo na sala da lareira, do Museu Almeida Moreira, em Viseu. Durante o mês de Maio, todos os domingos, o projecto CRETA apresenta “um dia não muito longe não muito perto”, um recital de poesia em torno da obra de Ruy Belo, idealizado e interpretado pelos actores Guilherme Gomes e Sofia Moura. Esta é a primeira actividade do projecto. Numa sala de estar, lugar quotidiano, duas figuras e a sua relação com a memória e a expectativa; com o outro; e com o acto da escrita. A  afinidade da obra de Ruy Belo com uma ideia de casa, o contraste com a frieza do lugar de museu, diálogo entre as palavras e o contexto, tudo isto pretexto para reflectir sobre a individualidade, a solidão, a alegria. A melhor maneira de administrar sabiamente a tristeza.

Este recital aconteceu todos os domingos de Maio, na sala da lareira do Museu Almeida Moreira, às 16h.

Alguma noite de tempestade terá Francisco Almeida Moreira ficado sentado nesta sala, a lareira acesa, com os olhos ultrapassando as paredes para um sonho acordado. Podemos imaginar que, algum dia, nesta sala, se terá Francisco Almeida Moreira sentido mal; que destas janelas conversou com gente; ou que perdeu algum tempo a reparar como cruza o sol as janelas. Podemos imaginar tudo isto, e podemos estar certos de que nesta sala viveu Francisco Almeida Moreira momentos de íntima felicidade e íntima tristeza. Podemos imaginar a voz que tem a sua casa habitada: o som da lareira, pratos que são pousados na mesa de uma sala distante, o pêndulo do relógio e a campainha a horas certas, o som da caneta que arranha o papel – de vez em quando, o som da chuva nas vidraças. Quanto mundo cabe numa sala!

Ao longo de quatro domingos, esta sala terá uma rotina: à mesma hora se dizem as mesmas palavras, repetem os mesmos gestos, convocam-se as mesmas memórias. Junto-me à Sofia Moura – à sua capacidade de vestir de clareza as palavras – e é Ruy Belo quem nos guia. Esse que nos ensina a repartir a tristeza pelos dias; que faz o elogio dos gestos domésticos, quotidianos. Que despe a máscara para nos relevar as nossas próprias fragilidades. Muitas vezes leio um poema como uma adivinha; os segredos que um poema guarda são mundos inteiros. Ao longo destas sessões, convido-vos a ouvir as imagens que Ruy convoca; a traduzir essas imagens com os vossos próprios olhos; a projectar isso nesta e em todas as salas onde se está e onde se esteve. E pergunto: qual é a voz de uma casa habitada?

– Guilherme Gomes

No Museu Almeida Moreira