Décima Primeira Carta de CRETA

03/25/2020Newsletter

No verão de 2016, numa tarde que já não consigo precisar, eu conduzia a mota em direcção a norte, na Estrada Nacional número 2. Estava a caminho de Chaves, cidade onde ia pernoitar. O dia estava limpo, um dia de sol. Era, afinal, o pico do verão. E ao longe, ali em frente, por cima de Chaves, imagino, começo a ver, branca e elevada, aquela que ainda hoje considero a nuvem mais bonita que alguma vez vi. A nuvem parecia quase sólida, uma gruta flutuante, tão grande e tão densa que se fazia sombra a si mesma.

Encostei a mota, fotografei a nuvem, e continuei o caminho.

Incapaz de ignorar a presença dela, à medida que eu avançava, mais da nuvem conhecia.

E, à medida da sua revelação, o encanto que sentia pela sua beleza começou a transformar-se em receio.

É que aquela nuvem se diluía num céu cinzento. Um tecto negro. E, sobre a cidade de Chaves, eu conseguia distinguir uma cortina de chuva.

Ali estava eu, rapaz no início dos vintes, a conduzir uma mota em direcção a uma tempestade.

De novo, encostei na berma da estrada. Desta vez, não tirei nenhuma fotografia, não queria tirar nenhuma fotografia. Tinha medo, simplesmente. Da mochila tirei um impermeável. No meio da chuva, lá ao fundo, como que ligando por breves instantes a nuvem à terra, eu consegui ver relâmpagos.

Nesta circunstância, inevitavelmente humilde, apertei o impermeável e continuei o caminho.

Começo por contar esta história, por ser uma em que me confrontei com o medo. E, ao confrontar com o medo, confrontei-me com uma imagem um pouco mais clara do que sou, ora, ao ler Simone Weil aprendi que no teatro grego havia esta ideia de que o sofrimento era indispensável para conseguir conhecimento. Bom, para mim, o conhecimento da minha vulnerabilidade, naquele momento, era gritante, e o meu sofrimento era uma nuvem. Aquela nuvem enorme, a sua beleza inédita.

Também agora me sinto esse rapaz nos vintes, na berma da estrada, a olhar para a tempestade.

No outro dia, ao ler a introdução a uma edição de poemas narrativos de William Shakespeare, aprendi que ele os escreveu durante uma quarentena. Entre meados de 1592 e início de 1594, os teatros de Londres fecharam por causa de uma praga. Shakespeare usou esse tempo para escrever “Vénus e Adónis”, o “Rapto de Lucrécia”, e outros longos poemas narrativos. Ele descreve a escrita destes poemas como um exercício que serve para “fazer algo desta hora vazia”, e “manter o lobo afastado da porta”.

Eu li isto, e pensei em nós. Pensei no ano de 2020. Neste momento de distanciamento social, e, num movimento optimista, pensei: como fazer algo desta hora vazia?

Sempre me pareceu que o teatro se faz de coisas indirectas. Desde que comecei a trabalhar, comecei a perceber que o teatro era mais sobre estar com as outras pessoas do que dizer coisas a outras pessoas; tenho a impressão de que esse estar com as outras pessoas, e a forma como estamos com elas, é que diz alguma coisa. Eu não digo que amo ou odeio alguém: mostro-o; passo por isso; e é a qualidade de um olhar que fala por mim, ou algum gesto discreto, um tom; no fundo, uma subtileza.

Se alguma coisa este distanciamento social nos pode ensinar, que seja sobre o seu oposto: a descoberta real do outro. A curiosidade, não só pelas suas ideias, mas pelas subtilezas que fazem as entrelinhas de um diálogo: a maneira como alguém faz determinados gestos, a forma como fala, como soa a sua voz, a forma como escuta, a posição que ocupa para o fazer; para onde olha quando falamos frente-a-frente?

E, de certa maneira, este momento pode provocar-nos a descoberta de qualquer coisa profundamente teatral: talvez tudo isto nos ensine a contracenar com a vida – expressão que roubo ao Luis Miguel Cintra.

Mas seja esta ou outra a descoberta deste momento, o importante é seguir o segundo conselho de Shakespeare: manter o lobo afastado da porta. Porque agora, estamos ainda na Estrada Nacional número 2. Já descobrimos o céu cinzento, intimidante. Tomamos as devidas precauções. Vestimos o impermeável, conduzimos um pouco mais devagar, pelo menos não temos pressa de chegar ao inevitável destino. Mas avançamos, confiantes. Estamos na Estrada Nacional número 2, e talvez agora, como aconteceu no verão de 2016, à nossa chegada, a tempestade já tenha passado.

Décima Carta de CRETA

02/12/2020Newsletter
A partir de agora, as cartas de CRETA vão acompanhadas da sua leitura. Uma outra forma de ficar a saber o que se passa neste labirinto. Hoje, poderão também subscrever a este conteúdo no Spotify e na Anchor. Em breve estaremos noutras plataformas.

Qualquer pessoa que se tenha sentado algum dia em frente a uma folha em branco com a missão de escrever alguma coisa sabe o que é isto de medir as palavras. As voltas que um texto dá para se fazer uma frase. A dificuldade de saber como colocar o que pensamos nas palavras certas.
Um dia, num artigo chamado “A Evolução do Pensamento”, dei com a ideia do professor Vladimir Dmitrievich Shadrikov, investigador e académico russo, de que a tradução do pensamento em palavras é um exercício criativo. De que transmitir um pensamento é parecido com descrever um lugar. É preciso como que inventar as palavras. E que ao pensamento que vem antes de haver palavras que o traduzam podemos chamar protopensamento.
Quando uma ideia é muito clara, mas não sabemos como a transmitir, bom, estamos na zona do protopensamento, segundo o professor Shadrikov.
De certa maneira, parece-me que é a esta procura que assistimos num solilóquio. Medir as palavras – uma ideia cara, esta. Dar às palavras uma medida, um peso, um valor. Reconhecer o seu poder.
Um solilóquio tem esta força. Senão vejamos: proponho-vos um exercício de imaginação:

(Som de ondas.)

Estamos a olhar do alto para uma costa rochosa, como se estivéssemos num precipício. Não há muita definição, a imagem divide-se em dois círculos luminosos, intermitentes; e as ondas a avançar sem piedade contra as rochas negras estão desfocadas.
Depois, vemos um par de olhos. Eles é que olham para a costa, eles é que vêem as ondas lá em baixo.  Eles é que estão neste precipício.
A imagem das ondas foge-nos.
E, então, uma interrogação…
“…To be or not to be, that is the question…” (“Ser ou não ser, é isso a questão”)
Agora sim. A imagem torna-se clara, vemos uma pedra grande, na praia de pedra escura. Vemos uma onda como que abraçando a pedra. Depois, vemos um homem debruçado sobre um parapeito. Loiro, em pose, um anel em cada mão, as mangas da camisa largas, tem um punhal embainhado à cintura.

Está a três quartos, foca o olhar em lugar incerto.
Parece estar só.
“… And by a sleep to say we end |The heart-ache and the thousand natural shocks |That flesh is heir to: ‘tis a consummation |Devoutly to be wish’d. To die, to sleep;…”
Estamos a olhar para Laurence Olivier, a ouvi-lo dizer o famoso monólogo de Hamlet, sobre ser ou não ser. Vê-lo nesta circunstância torna claro o que se passa com a personagem. Ao perguntar “ser ou não ser”, Hamlet está a pesar o seu suicídio.
E em determinado momento, ele desembainha o punhal.
Quando o faz, Hamlet fecha os olhos, fecha a boca. O monólogo continua como se ouvíssemos o seu pensamento. A cena cresce, com o nosso olhar cada vez mais próximo da cara do príncipe, com a argumentação que faz cada vez mais determinante para o gesto derradeiro.

Mas heis que uma ideia…
“… perchance to dream…”

Afastamo-nos, os olhos abrem-se. Hamlet está deitado no parapeito. O punhal na mão.
O tom do discurso muda. Deixou de fazer sentido, a morte. E nós temos a sensação de que ele percebe que não é esta a solução para a sua tragédia.
Hamlet assume uma postura hirta, aparentemente racional, céptica, desiludida. E, sem grande entusiasmo, ele afasta-se do precipício.
“… And enterprises of great pitch and moment |With this regard their currents turn awry |And lose the name of action.”

 Esta é a descrição de um excerto do filme “Hamlet”, dirigido e protagonizado por Laurence Olivier em 1948 a partir do texto com o mesmo nome, escrito por William Shakespeare em 1600.
Solilóquio é uma palavra estranha, mas facilmente se desmistifica. No fundo serve para nomear um texto em que a personagem fala sozinha.
Como eu, agora. Se, por um acaso, dessem comigo a fazer esta gravação, o que veriam era um rapaz sozinho numa sala, com auriculares nos ouvidos, muito concentrado a ler para um microfone.
Mas há uma coisa bonita (e útil) num solilóquio: assistimos a alguém que diz em voz alta uma série de argumentos sobre algo por que está a passar; ou sobre alguma coisa que está a sentir; ou uma ideia que tem.
Em todos os casos, parece-me que um solilóquio é o sintoma de um pensamento. E isto entusiasma-me porque me parece uma espécie de ensaio para o diálogo ou para a acção. Como se assistíssemos ao momento do estratega que prepara uma batalha, ou faz o balanço de uma derrota ou de uma vitória.
Quando penso em solilóquios, é o nome de Shakespeare que me vem à cabeça. Assistimos a tantos momentos destes nas suas peças. Momentos de intimidade entre a personagem e o público.
Ouvimos este que é, provavelmente, o solilóquio mais conhecido da história do Teatro, mas propunha ler-vos a primeira fala da peça Ricardo III, um outro solilóquio, numa tradução feita por Eduarda Dionísio, Maria Adélia Silva Melo e Luis Miguel Cintra, editada pela Difel.

Ouve-se o livro ser folheado.
Lê primeira fala de “Ricardo III”.  

O solilóquio com que Ricardo abre a peça é o exemplo perfeito do caminho, e da exposição, de um pensamento.
Este homem é um estratega, e sabemo-lo porque o vemos medir os seus planos. E ao mesmo tempo, podemos adivinhar a sua tragédia, a marca que o define, a sua deformidade, a rejeição de que é alvo – os cães que ladram quando passa…
Parece-me que este solilóquio sustenta a contenção nos diálogos que se seguem. As palavras saem medidas porque houve este momento.
Começar uma peça com o balanço das intenções do protagonista feito pelo próprio, parece-me engenhoso. Entramos como que no meio da festa. E convidados pelo protagonista. Como com Hamlet, somos cúmplices, já, das suas intenções.
A partir de agora, podem falar por meias palavras, porque fizeram de nós bons entendedores.

Pela minha parte, normalmente é a caminhar que me ponho em solilóquios. É quando arrumo ideias, refaço discussões, planeio uma argumentação, vislumbro a maneira de traduzir por palavras os pensamentos.
Caminhar ajuda-me a pensar.
Os meus solilóquios na vida real, nunca acontecem num precipício, ou na soleira de uma porta, ou na sombra de uma esquina. Acontecem, muito banalmente, enquanto caminho Avenida Almirante Reis abaixo, ou quando estou a caminho do metro – medindo as palavras à luz clara da manhã…

Eu sou o Guilherme Gomes, e esta foi a décima carta de CRETA. Despeço-me, lembrando que podem responder a esta mensagem através do nosso email creta@teatrodacidade.pt.
As músicas usadas nesta gravação vêm do site bensound.com.
Obrigado por ouvirem; até ao próximo mês.

Nona Carta de CRETA

12/31/2019Newsletter

Olá,

Escrevo de pé, em frente a uma porta fechada. Porque, em princípio, para todos os labirintos há um fim. Afinal, cada labirinto é um enigma, um problema que se coloca, e a chave da sua resolução alguém a guarda, ou em algum momento se encontra. No caminho que percorremos, neste labirinto de CRETA, chegámos aqui: uma porta, o fim de um percurso. Enfim solucionado, podemos pensar sobre o caminho que escolhemos fazer.

2019 foi um ano transformador. Desde que CRETA apareceu, em Maio, aprendi um mundo de coisas novas. Vocês mo ensinaram. E, se alguma coisa posso dizer, eu agradeço.

Agradeço à Ana Seia de Matos, ao Luís Belo, ao Luis Miguel Cintra, à Carla Galvão, ao João Reixa, à Bruna Maia de Moura, à Nídia Roque, ao Rui Seabra, ao L Filipe dos Santos, ao Rui Pêva, à Sílvia Duarte, à Sofia Moura, ao Dennis Xavier, à Rosana Baena, à Guida Rolo, ao Roberto Terra, à Mariana Pereira, à Rosário Pinheiro, ao Gonçalo Alegre, à Sónia Sobral, ao Jorge Fraga, ao André Teixeira, ao Francisco Poppe, à Gabriela Coutinho, a Loff Olufson, ao Rafael Lopes, à Rita Camões, à Vanessa Parauta, ao Bruno Bravo, à Ana Alves, à Rosa Cotinha, e à Rita Cabaço por terem participado na programação de CRETA de forma mais ou menos directa, contribuindo para que o projecto fosse o que foi.

Também às instituições que se associaram a CRETA, deixo o meu agradecimento. Nomeadamente o Município de Viseu, cujo apoio atribuído através do programa Viseu Cultura, e da mediação de contactos com os Museus Municipais, foi fundamental para que CRETA existisse.

E a todos os que se juntaram a nós, na construção deste percurso, obrigado.

Chegados aqui, penso neste movimento de construção a tantas mãos. Que coisa extraordinária, olhar por cima do ombro, ver que para trás o caminho ficou iluminado; olhar para o chão e reparar que ao lado da marca dos meus passos encontro a marca dos vossos.

Mas chegámos a uma porta. Como no Teatro, porque estamos num labirinto, esta pode ser uma porta falsa; perceberemos então, que o caminho valeu pelo caminho, que a consequência deste percurso é a marca que deixamos no chão, e o corredor iluminado. Estendo a mão para a porta, confortado pela ideia de que, se a porta for falsa, pelo menos o caminho até aqui chegar foi de uma grande riqueza. Faço rodar a engrenagem da fechadura, a porta cede, do outro lado um corredor ainda. Talvez seja este o segredo de CRETA, aquele em que Dédalo se enredou, a cada promessa de solução, um novo caminho por percorrer.

Em 2020 continuaremos a caminhada que em 2019 começámos. Optei por dedicar o próximo ano a pensar sobre a passagem do Tempo através da programação de CRETA. E sei que no tempo de um ano estaremos de novo em frente a uma porta, com a incerteza ainda do que para lá da porta estará. Nesse momento olharemos sobre o ombro, outra vez, e vamos poder ver com amizade o que agora ainda é futuro. Haverá, no final de contas, melhor presente?

Atrevo-me a desejar a todos os que estão a ler estas palavras, votos de um novo ano repleto de inquietação. Acima de tudo, inquietação. Uma nova década inquieta. E que essa inquietação nos convoque o pensamento.

Retomamos as actividades de CRETA em Maio de 2020.
Até lá, vamos dando notícias.
Um abraço, e até já!
Guilherme

Oitava Carta de CRETA

12/02/2019Newsletter

Estendo a mão e já os meus dedos ultrapassam a fronteira. Sendo esta uma das últimas cartas de CRETA, chegando nós ao fim do ano, e, com isso, ao fim de CRETA, talvez se espere que apresente alguns números: qual o alcance do projecto, quais as actividades que fizemos, que retiramos de tudo isto. Mas, francamente, acho mais importante falar de fronteira. E parte porque Dezembro é a fronteira entre este e o próximo ano, e porque em Dezembro as fronteiras alimentam o que em CRETA se passa.

Portanto, retomo: estendo a mão e já os meus dedos ultrapassam a fronteira. Estou no meio de uma estrada, a ponta dos meus dedos em Espanha, meu corpo inteiro em Portugal. O mesmo sol ilumina este lado e aquele. Nada nos meus dedos indica que estão em lugares diferentes. Ainda assim, partindo meu corpo, uma fronteira. E, para além de necessidades administrativas, pergunto: o que faz uma fronteira? Porque existe uma fronteira? Mesmo as fronteiras do corpo, onde começo? Onde termino? Ou serei do tamanho do que vejo, ao jeito de Pessoa?

Pergunto isto porque sei que, logo no início de Dezembro, nos dias 6 e 7, uma migrante chamada Ĉiela, há de morrer numa fronteira. Podemos vê-lo no espectáculo lamento de ĉiela, que escrevi e encenei. A interpretação é de Carla Galvão e de Bruna Maia de Moura. Não posso deixar de pensar que em algum momento Ĉiela tem de fugir precisamente por haver fronteira, e que Ĉiela morre precisamente porque há fronteira. E que no teatro, como o poderão sentir na Igreja Madre Rita, há fronteiras, limites evidentes.

E é na fronteira de si mesmas que Sofia Moura e Rosana Martínez Baena fazem Península, no final de Dezembro. Um espectáculo criado a partir da sua condição de vizinhas peninsulares. Imagino que também elas perguntem o que as distingue, se o mesmo sol as ilumina. Curiosa reflexão, esta, em que duas pessoas vêem a fronteira que as separa diluída por uma outra. Afinal, muito líquido é este conceito. E talvez seja como diz a canção: é mais o que nos une que aquilo que nos separa. Península será a primeira produção da companhia Mochos no Telhado. Algum dia assistiram ao nascimento de uma Companhia de Teatro?

Da fronteira levanto o braço, aceno-vos com amizade. Aqui estamos, por aqui andámos, esperamos, do outro lado da fronteira, continuar a construir este projecto.

Até breve.
Um abraço,
Guilherme

Sétima Carta de CRETA

11/03/2019Newsletter

Quem cuida dos imortais? Dos imortais guerreiros, dos imortais problemas, das imortais expectativas. Quem cuida dos imortais como quem diz quem os abriga, mas também, quem repara que os imortais existem sequer.
Passei os últimos meses a pensar em Miguel Ângelo, pensamento que culmina na leitura da sua biografia escrita pelo professor Agostinho da Silva. Enquanto Miguel Ângelo pintava, a portas trancadas, o tecto da Capela Sistina, quem cuidava desta imortal força?
“Quem cuida dos imortais?” passa a ser, bem vistas as coisas, uma pergunta importante. Quem cuida da imortal graça, ou da imortal confusão, quem cuida da imortal natureza, quem cuida das imortais nuvens e dos imortais vales?
Talvez os poetas.
Tudo isto porque Jorge Fraga decidiu chamar imortais ao recital que apresenta em CRETA. Que ideia feliz. É do seu recital, pelo menos do guião que Fraga construiu, que retiro esta questão. Jorge Fraga e os seis leitores que a ele se juntam para o recital são cuidadores de imortais ideias, imortais palavras, imortais sentimentos. Também a casa onde concretizam este cuidar parece casa de imortais. A Casa das Águias, ali perto da Cava de Viriato, é o palácio dos imortais durante todas as tardes de domingo de Novembro.

Numa visita a Paris, decidi fazer o percurso entre a casa de Samuel Beckett e o estúdio de Alberto Giacometti como imaginei que Beckett o faria: a pé. Cruza-se, no caminho, o cemitério de Montparnasse. Jean Genet disse sobre as esculturas de Giacometti que eram mortos caminhando. Todas estas ideias somadas, gosto de pensar que foi com discretos imortais que Samuel Beckett lidou toda a sua vida. Os seus estranhos diálogos, a sua inóspita circunstância. Beckett, que tinha Joyce como mestre e referência, acabou por contrariá-lo: foi pela subtracção que trabalhou, parece que procurando esboçar a essência humana (mais uma imortal). No dia 5 de Novembro, no Clube de Leitura de Peças de Teatro, lemos duas peças curtas deste que é um dos mais influentes nomes da dramaturgia moderna. Pessoalmente, não escondo a importância que Beckett tem para as coisas que penso.

Como uma espécie de brincadeira com os conceitos que aqui convoco, é também em torno de abrigo que a Oficina de Figurinos deste mês se faz. Chamamos-lhe O Princípio de um Casaco e creio que o título é eloquente apresentação da oficina; continuamos a querer responder à vontade de transformar em símbolo tudo o que se coloca em cena. Atenção, embroa se realize dias 16 e 17 de Novembro, as inscrições terminam já no dia 8.

A terminar o mês temos encontro com três jovens cabeças viseenses, que convidamos a pensar sobre mais uma das cartas do professor Agostinho da Silva na segunda edição de Água Nova para as Mesmas Margens. Será no dia 30 de Novembro, só ainda falta confirmar o lugar.

Agora que chego ao fim do texto penso que poderia ter escrito sobre isto mesmo: o fim. Este mês é o mês do último Recital, do último Clube de Leitura, da última Oficina, do último Água Nova para as Mesmas Margens. Depois deste mês ficam a faltar na agenda de CRETA dois espectáculos: um que vem logo no início de Dezembro, escrito e encenado por mim, com as maravilhosas Carla Galvão e Bruna Maia de Moura. Apresentamos o “lamento de ĉiela”, espectáculo em torno da figura histórica do migrante, na Igreja Madre Rita, nos dias 6 e 7 de Dezembro. No final de Dezembro, a recém formada companhia Mochos no Telhado apresenta, resultado de um convite feito a Sofia Moura, aquela que é a sua primeira produção. Luis Miguel Cintra escreveu um dia que por cada nova companhia de teatro que surge deviam acender-se mil estrelas no céu. Deixo aqui a minha expectativa: com o aparecimento da Mochos no Telhado, parece-me, há de nascer uma galáxia inteira.

Esta é a penúltima carta de CRETA anunciando intenções. Como sempre, estamos carentes das vossas respostas. E agradeço todas as generosas palavras que temos recebido desde Maio. Que entusiasmante aventura!

Um abraço,
Guilherme

Sexta Carta de CRETA

10/11/2019Newsletter

Tenho andado com esta ideia na cabeça: a importância de um lugar. Talvez influenciado pela Écloga de Jano e Franco, que ouvimos ao longo do mês de Setembro em CRETA, em que o Roberto Terra sublinhava a migração dos dois pastores que protagonizam o texto, pastores que são projecções de dois dos maiores vultos da poesia portuguesa: Bernardim Ribeiro e Sá de Miranda. A caminhada destes pastores-poetas lembra-me a série de Conversas Vadias de Agostinho da Silva, que orgulhosamente vagueava – e que também lemos este mês que passou em CRETA. E penso, empurrado por estas sombras, na importância de um lugar: de pertencer a um lugar, de ser recebido ou receber num lugar, de habitar um lugar, de chegar a um lugar. Como se constrói uma geografia? E é curioso pensar na própria natureza de um lugar: entre a física e outras dimensões.

De qualquer forma, entre lugares caminhamos. E Outubro começa com, precisamente, algumas ideias sobre a construção de sapatos. Não é completamente desconhecida a história de grandes actores que interrompem a carreira para aprender a fazer sapatos. Por aqui, também nos lançamos a esse desafio dando continuidade à série de oficinas em torno do fazer teatro. O Princípio de um Sapato acontece já este fim-de-semana, em duas sessões. Trata-se de um encontro que tem como fim último compreender o sapato como elemento cénico. Como é que compreendendo um sapato (neste caso alpergatas) pode ser mais ágil a sua utilização em cena? Já antes tínhamos feito este exercício com um vestido – havemos de o repetir com casacos.

Também em Outubro, vamos receber a visita de Bruno Bravo, da companhia Primeiros Sintomas, recentemente premiado na gala dos Globos de Ouro pelo seu belíssimo Tio Vânia. Falar-nos-á do Princípio de um Espectáculo. Ao longo da sua actividade, a companhia Primeiros Sintomas tem vindo a trabalhar em torno da adaptação de textos narrativos para teatro. Será sobre a caminhada entre esses dois lugares que o Bruno nos falará na oficina que acontece no final do mês.

Entre lugares vamos caminhando. Talvez trazendo ainda na sola dos sapatos vestígio do lugar anterior. Havemos de chegar, um dia, a esse extraordinário lugar plural. Por aqui, ficamos gratos por saber que não é uma caminhada solitária.

Um abraço,
Guilherme

Quinta Carta de CRETA

08/26/2019Água Nova Para As Mesmas Margens, Clube de Leitura, Recital de Poesia, Newsletter, Guilherme Gomes

Setembro é sempre o mês da reentrada. Também em CRETA o princípio se aplica. Há sempre encontros por marcar, e, depois de um mês em que vos convidámos a preguiçar, voltamos com um calendário.

Lembro-me bem de ouvir falar em éclogas pela primeira vez. Estava na sala de ensaios do Teatro do Bairro Alto, casa da Cornucópia durante 40 anos. Foi o José Manuel Mendes quem falou disto. Estaríamos a fazer um espectáculo a partir de textos de Gil Vicente e seus contemporâneos, com certeza; as éclogas vieram à baila, e eu perguntei o que eram. Fiquei sempre com a ideia da existência destes textos atrás da orelha. Foi muito evidente, quando começámos a trabalhar no projecto CRETA, que em algum momento haveria de querer ler e partilhar éclogas: dar a conhecer a quem, como eu, ignora; oferecer uma leitura a quem já conhece; estudar, compreender as suas dinâmicas, os seus temas, as personagens. E foi pela internet que comprei um livro com aspecto muito antigo (as folhas frágeis, as páginas descosidas, o tom castanho – e aquele cheiro). Foi aí que encontrámos a Écloga de Jano e Franco, que estreamos no início de Setembro, ali no Fontelo, e apresentamos todos os domingos do mês. Este Recital, que esteve para se chamar “Todo o que te ei contado / Todo cási aconteceu”, é uma criação do Roberto Terra, actor que está sediado em Viseu, que convidámos a fazer a leitura do poema de Bernardim. Para além do encontro com outra pessoa na criação, há o prazer de ver trabalhar com inteligência; e tenho confiança de que o que o Roberto está a fazer não é apenas bom, será importante.

Logo a seguir, voltamos a sentar-nos à mesa. No dia 3, lemos O Despertar da Primavera, de Frank Wedekind, no nosso Clube de Leitura de Peças de Teatro. Sobre este texto escrevi umas palavras que podem ler no site. De qualquer forma, chamo particular atenção para esta sessão do Clube, que acontece no espaço onde a Inês Flor trabalha, e que gentilmente nos cede para estes encontros. Parece-me que este é um daqueles textos que podem mudar uma vida.

No último fim-de-semana do mês, mais propriamente, no dia 28, apresentamos uma novidade. Chamamos-lhe Água Nova Para as Mesmas Margens. Em três encontros, vamos ler e conversar sobre as Sete Cartas a Um Jovem Filósofo, de Agostinho da Silva. Para isso, convidamos oradores que respondem a este requisito: são água nova. Neste primeiro encontro, na Escola Secundária Alves Martins, falamos com a Mariana Pereira e a Rosário Pinheiro.

Escrevo isto e penso: qual será a coerência entre cada uma destas actividades? Que pontes invisíveis ligam o Recital ao Clube de Leitura à Água Nova? Uma resposta me parece possível: Setembro fala-nos de afirmação. De alguém que se reconhece. Do pobre Jano, que parece ter enfim decifrado o seu destino, dos jovens que Wedekind escreveu a lutar contra a herança, dos conselhos de um filósofo para seu aprendiz. É sobre este momento de afirmação, um momento em que, de certa maneira, nos descobrimos, passamos para um outro estado, uma outra atenção. Quando se nos acendem luzes. Em Setembro, em CRETA, é disso que estamos a falar.

Sobre todas estas actividades há muita coisa para ler no site, que vos convido a explorar.
Enfim, reentramos. E este mês promete ser muito entusiasmante!
Obrigado por estarem desse lado.
Como sempre, sintam-se à vontade para responder a esta mensagem.

Um abraço, e até breve.
Guilherme

© Fotografia de Luís Belo

Quarta Carta de CRETA – Um postal de Verão

08/02/2019Newsletter, Guilherme Gomes

Enquanto atravesso esta planície, os primeiros raios de sol iluminam autênticos monstros de pedra que se levantam na paisagem cor de mel. Volto de uns dias de paragem numa pequena povoação na Estremadura espanhola. Faço esta viagem de mota, e isso dá-me a possibilidade de, enquanto viajo, não fazer mais nada senão conduzir e pensar. A mota não tem rádio, eu não levo qualquer género de aparelho que me permita fazer chamadas ou tirar dúvidas no GPS. É um exercício curioso, tentar adivinhar o caminho; de vez em quando encostar na berma com a impressão de que os últimos quilómetros foram na direcção errada. Mas, portanto, viajo sempre pensando noutra coisa que não o vento que faz, ou a chuva que se adivinha. Vou sonhando, fazendo histórias, assistindo a diálogos entre personagens que alguma coisa me inspira. E foi num destes sonhos, olhando para um destes monstros de pedra, que pensei em Eyolf. Compreendi o fascínio pela Mulher dos Ratos, pus-me a imaginar o seu poder hipnótico, porque hipnótica é a paisagem. E a extraordinária contradição desta visão que é ao mesmo tempo bela e consumidora. Olhar para esta planície, para estes montes, poder ver como é belo, e pensar: também isto me pode desgraçar. Parece-me tornar evidente a complexidade da experiência. Nem tudo é evidente; na verdade, pouca coisa o é. Não é um sorriso ou uma gargalhada garante de felicidade, não é uma criação extraordinária garante de um espírito efusivo. E isso, tendo a crer, é coisa que se percebeu no clube de leitura que fizemos este mês, em que lemos “O Pequeno Eyolf”, de Ibsen. No clube de leitura, e nos momentos extraordinários que passámos na plataforma do Funicular, no início do mês, enquanto participávamos no Festival MESCLA. Abordar todos aqueles autores trouxe-me um pensamento um pouco mais variado em relação aos assuntos que me ocupam a cabeça. Afinal, esse é o maior contributo que CRETA pode dar a todos os que com CRETA se cruzam: a pluralidade, a heterodoxia, um vislumbre da complexidade da experiência humana. Tudo isto, através de textos da dramaturgia mundial, de textos da poesia portuguesa, e de encontros que um espectáculo ou uma oficina ou um debate podem provocar.

Em Agosto, CRETA não tem nenhuma actividade. Preparamos os meses que se seguem. Em Setembro retomamos com um Recital em torno da “Écloga de Jano e Franco”, de Bernardim Ribeiro, mais um clube de leitura (lemos o “Despertar da Primavera”, de Frank Wedekind), e uma conversa em torno de uma das “Sete Cartas a um Jovem Filósofo”, de Agostinho da Silva. E não fazemos nada em Agosto porque não vos queremos sobrecarregar. Haverá muito que fazer neste mês. Começa, não tarda, a Feira de São Mateus, é certo; há uma lista inteira de livros para ler, não nego; mas não posso deixar de partilhar um título: ofereceram-me há uns tempos um livro escrito pelo senhor Paul Lafargue, um jornalista nascido em Cuba, genro de Karl Marx. O livro do senhor Lafargue chama-se “O Direito à Preguiça”. Eu sei que é difícil ceder, eu próprio confirmo que a cabeça está sempre a fervilhar. Mas, nos dias que passei na pequena povoação espanhola, fiz o exercício de tentar não fazer nada. É uma espécie de trampolim; estamos carentes desse não fazer nada. E é muito difícil praticá-lo: há sempre coisas pequenas que se acumulam nos ombros, e temos o telefone com o email, o Facebook, o Instagram. Fica o desafio: pelo menos num destes dias usufruir do direito que Lafargue anuncia.

Bom, os monstros de pedra já estão todos iluminados. Fez-se dia, e eu ainda estou na planície.

Como sempre, sabem que podem responder a este email.

Um abraço, e alguma preguiça.
Guilherme

© Fotografia de Guilherme Gomes

Terceira Carta de CRETA

07/01/2019Newsletter, Guilherme Gomes

E, num instante, esta é já a terceira carta que vos dirijo. Corresponde a dois meses de CRETA, e é espantoso ver como em dois meses tanta coisa pode acontecer. Em dois meses conheci pessoas, e com elas comecei a trocar ideias; em dois meses houve espaço para surpresas e confirmações; em dois meses até para quezílias houve tempo.

Estou a escrever-vos esta carta e penso numa coisa que não me sai da cabeça nos últimos meses: como nasce uma palavra na boca de alguém? Como se forma? O que segura a palavra – e como se tem acesso ao seu esqueleto, ou à sua estrutura, se a quisermos ver como construção? E a palavra surge como uma espécie de poço, de onde se recolhem todos os sentidos. E há a palavra segredo, a palavra amor, a palavra paz, a palavra infinito, a palavra pai, e a palavra mãe, há a palavra dor, e a palavra traição, a palavra sofrimento. Palavras que trazem consigo o mundo inteiro; que formam pontes entre mim e aquele que me ouve, ou lê. Comunicam. Palavras preciosas, talvez fosse possível prescindir de grupos de palavras: deixar uma palavra só, e que ela dissesse. Talvez fosse possível carregar uma palavra de tanto significado, que dizendo pouco traduzimos tudo. A poesia é isto, afinal. E no cinema, são referência para mim os filmes de mestres nórdicos, em que a economia da palavra é um jogo de tensão tão forte que nos intimida. Lembro-me de um filme, em particular, por se chamar “A Palavra”, de Carl Theodor Dreyer. Fica a sugestão.

Falo da palavra porque é essa a ponte entre nós neste preciso momento, enquanto estão a ler este texto. E porque ao longo destes dois meses tem sido em torno da palavra o trabalho que vamos desenvolvendo. Em Junho, depois de fazermos a segunda sessão da Oficina de Figurinos em torno do Princípio de um Vestido, conversámos com Luis Miguel Cintra sobre encenação, aproveitando a presença do encenador em Viseu para os ensaios de ERMAFRODITE, que apresentámos numa curta carreira de três récitas no final do mês. Dialogar com o Luis Miguel soa-me sempre a desafio. O que ele nos propõe, até na direcção de actores, é por vezes difícil de compreender – e uma tentativa de questionar todas as regras. Uma grande aprendizagem é ver como Luis Miguel Cintra não se conforma com soluções que já encontrou; não faz atalhos, procura sempre fazer o caminho inteiro de forma honesta e cheia de questões, tenho a impressão de que como se estivesse sempre a começar. ERMAFRODITE foi um desafio a todos os níveis, e fico muito feliz por termos apresentado este objecto – nem sei ao certo como lhe chamar – em Viseu. Ele não se integra realmente no que já conhecemos.
Ainda em Junho, fizemos a apresentação formal do projecto CRETA. E encontrámo-nos pela primeira vez para ler em conjunto, na primeira sessão do Clube de Leitura. Lemos “Pai”, de August Strindberg, e foi uma noite linda, devo dizer a quem não pôde estar!

Em Julho, o nosso percurso será um bocadinho mais intenso e curto: a convite do Município de Viseu, participamos no festival Mescla com um conjunto de conversas em torno de poesia. No fundo, vamos olhar para os autores que abordamos ao longo do ano nos Recitais de Poesia para dedicar algum estudo que não será possível tornar público quando fazemos os recitais; e vou partilhar a obra de alguns outros poetas que ressoam, para mim, de maneira particular. Vou contar com a presença dos restantes actores do Teatro da Cidade nestes encontros, bem como da Sofia Moura e do Roberto Terra. Serão encontros curtos, de 40 minutos, todos dos dias, entre 2 e 7, às 18h.

Depois, temos encontro marcado para mais um Clube de Leitura, no dia 16. Desta vez, vamos ler “O Pequeno Eyolf”, de Henrik Ibsen, uma peça que proponho para o Clube de Leitura precisamente porque não conhecia. Li-o um destes dias, e é um texto muito bonito sobre a Responsabilidade Humana – tema a que não podemos ser alheios quando nos chegam fotografias e notícias de gente como nós que morre nas margens de um rio, ou no areal de uma praia – ou quando assistimos a uma alteração do clima tão evidente e transformadora como a que atravessamos. Tenho a certeza de que este Clube de Leitura será tão estimulante como o anterior. Já podem ter acesso ao texto. Se não conseguirem estar presentes, façam-se representar por amigos que eventualmente encontrem interesse em serões de discussão como o que tivemos.
E é isto.

Tenho recebido respostas a estas cartas; não se inibam de escrever de volta, prometo que respondo!  Obrigado a todos por darem a impressão de que CRETA acontece em tão boa companhia.

Um abraço,
Guilherme

© Ilustração de L Filipe dos Santos

Conferência de Imprensa: CRETA, um labirinto em Viseu

06/17/2019Uncategorized

CRETA tem como subtítulo laboratório de criação teatral, porque pretende ser um projecto com as características de um laboratório, isto é, um lugar de experimentação e descoberta”, é desta maneira que Guilherme Gomes, membro do Teatro da Cidade, director do projecto, apresenta CRETA – laboratório de criação teatral, promovido pelo Teatro da Cidade e apoiado pelo Município de Viseu, através do plano VISEU CULTURA. Até ao final de 2019, CRETA apresenta espectáculos de teatro, recitais de poesia, oficinas de figurinos, encenação, e produção, clubes de leitura, e encontros-debate, cumprindo os vectores a que o Município de Viseu procura responder “programação, criação e formação”, como reforçou Jorge Sobrado, vereador da cultura do Município de Viseu, que acrescenta que “não há ambientes culturais saudáveis que sejam fechados, um ambiente cultural e artístico estimulante é um lugar de diálogo, aberto. Para usar a metáfora em que assenta o projecto CRETA, é um labirinto com entradas e saídas, ou, pelo menos, soluções”. Desta forma, para além de actores locais, CRETA convida criadores que não estão sediados em Viseu a dialogar com a cidade. É o caso da companhia Primeiros Sintomas, uma companhia de teatro sediada em Lisboa, com um percurso sólido, afirmando-se como uma das companhias de referência da actualidade, que apresentará em Viseu, no mês de Outubro, o espectáculo “A História Assombrosa de Como o Capitão Michel Albam Perdeu o seu Braço”, do Polo Cultural das Gaivotas e Espaço Alkantara, que orientarão uma Oficina de Produção na segunda metade do ano, e de Luis Miguel Cintra, que está em Viseu para criar o primeiro espectáculo produzido pelo projecto CRETA, “Ermafrodite”, um espectáculo-conferência sobre o casamento, com textos de Camilo Castelo Branco, colados pelo próprio Luis Miguel Cintra. O espectáculo estreia no dia 27 de junho, na Incubadora do Centro Histórico, em Viseu.

Jorge Sobrado sublinhou ainda que este projecto parece derrubar as fronteiras entre o público e o teatro, convidando o público a dialogar com os criadores, ou os bastidores da criação. “CRETA é um projecto teatral indirectamente, uma vez que pretende contribuir para enriquecer o caminho que leva à criação de um espectáculo, mais ainda do que fazer espectáculos, tentar com isso contrariar a mediocridade que se vai sentindo um pouco por todo o lado. Não que saibamos fazer algo melhor, mas confiando que através do diálogo podemos chegar a essa solução”, confirma Guilherme Gomes, na véspera do primeiro clube de leitura, em que se abordará a obra do dramaturgo August Stindberg. “Formam-se criadores, mas também se forma público”, comenta o vereador.

A primeira manifestação de CRETA aconteceu em Maio, com o recital dedicado à obra de Ruy Belo; o mês de Junho fica marcado pela estreia de “Ermafrodite”, encenado por Luis Miguel Cintra; em Julho CRETA marcará presença no festival Mescla, promovido pelo Município de Viseu; para além das actividades regulares, Setembro destaca-se pelo segundo recital de poesia, dedicado às palavras de Bernardim Ribeiro; em Outubro promove-se a ida da companhia Primeiros Sintomas a Viseu; Novembro é o mês do terceiro recital de poesia, dedicado ao período Romântico; em Dezembro estreiam-se duas criações de CRETA: “lamento de ĉiela”, com texto e encenação de Guilherme Gomes; e “Península”, uma criação de Sofia Moura.

© Texto de Guilherme Gomes. Fotografias de Luís Belo