Oitava Carta de CRETA

12/02/2019Newsletter

Estendo a mão e já os meus dedos ultrapassam a fronteira. Sendo esta uma das últimas cartas de CRETA, chegando nós ao fim do ano, e, com isso, ao fim de CRETA, talvez se espere que apresente alguns números: qual o alcance do projecto, quais as actividades que fizemos, que retiramos de tudo isto. Mas, francamente, acho mais importante falar de fronteira. E parte porque Dezembro é a fronteira entre este e o próximo ano, e porque em Dezembro as fronteiras alimentam o que em CRETA se passa.

Portanto, retomo: estendo a mão e já os meus dedos ultrapassam a fronteira. Estou no meio de uma estrada, a ponta dos meus dedos em Espanha, meu corpo inteiro em Portugal. O mesmo sol ilumina este lado e aquele. Nada nos meus dedos indica que estão em lugares diferentes. Ainda assim, partindo meu corpo, uma fronteira. E, para além de necessidades administrativas, pergunto: o que faz uma fronteira? Porque existe uma fronteira? Mesmo as fronteiras do corpo, onde começo? Onde termino? Ou serei do tamanho do que vejo, ao jeito de Pessoa?

Pergunto isto porque sei que, logo no início de Dezembro, nos dias 6 e 7, uma migrante chamada Ĉiela, há de morrer numa fronteira. Podemos vê-lo no espectáculo lamento de ĉiela, que escrevi e encenei. A interpretação é de Carla Galvão e de Bruna Maia de Moura. Não posso deixar de pensar que em algum momento Ĉiela tem de fugir precisamente por haver fronteira, e que Ĉiela morre precisamente porque há fronteira. E que no teatro, como o poderão sentir na Igreja Madre Rita, há fronteiras, limites evidentes.

E é na fronteira de si mesmas que Sofia Moura e Rosana Martínez Baena fazem Península, no final de Dezembro. Um espectáculo criado a partir da sua condição de vizinhas peninsulares. Imagino que também elas perguntem o que as distingue, se o mesmo sol as ilumina. Curiosa reflexão, esta, em que duas pessoas vêem a fronteira que as separa diluída por uma outra. Afinal, muito líquido é este conceito. E talvez seja como diz a canção: é mais o que nos une que aquilo que nos separa. Península será a primeira produção da companhia Mochos no Telhado. Algum dia assistiram ao nascimento de uma Companhia de Teatro?

Da fronteira levanto o braço, aceno-vos com amizade. Aqui estamos, por aqui andámos, esperamos, do outro lado da fronteira, continuar a construir este projecto.

Até breve.
Um abraço,
Guilherme

Sétima Carta de CRETA

11/03/2019Newsletter

Quem cuida dos imortais? Dos imortais guerreiros, dos imortais problemas, das imortais expectativas. Quem cuida dos imortais como quem diz quem os abriga, mas também, quem repara que os imortais existem sequer.
Passei os últimos meses a pensar em Miguel Ângelo, pensamento que culmina na leitura da sua biografia escrita pelo professor Agostinho da Silva. Enquanto Miguel Ângelo pintava, a portas trancadas, o tecto da Capela Sistina, quem cuidava desta imortal força?
“Quem cuida dos imortais?” passa a ser, bem vistas as coisas, uma pergunta importante. Quem cuida da imortal graça, ou da imortal confusão, quem cuida da imortal natureza, quem cuida das imortais nuvens e dos imortais vales?
Talvez os poetas.
Tudo isto porque Jorge Fraga decidiu chamar imortais ao recital que apresenta em CRETA. Que ideia feliz. É do seu recital, pelo menos do guião que Fraga construiu, que retiro esta questão. Jorge Fraga e os seis leitores que a ele se juntam para o recital são cuidadores de imortais ideias, imortais palavras, imortais sentimentos. Também a casa onde concretizam este cuidar parece casa de imortais. A Casa das Águias, ali perto da Cava de Viriato, é o palácio dos imortais durante todas as tardes de domingo de Novembro.

Numa visita a Paris, decidi fazer o percurso entre a casa de Samuel Beckett e o estúdio de Alberto Giacometti como imaginei que Beckett o faria: a pé. Cruza-se, no caminho, o cemitério de Montparnasse. Jean Genet disse sobre as esculturas de Giacometti que eram mortos caminhando. Todas estas ideias somadas, gosto de pensar que foi com discretos imortais que Samuel Beckett lidou toda a sua vida. Os seus estranhos diálogos, a sua inóspita circunstância. Beckett, que tinha Joyce como mestre e referência, acabou por contrariá-lo: foi pela subtracção que trabalhou, parece que procurando esboçar a essência humana (mais uma imortal). No dia 5 de Novembro, no Clube de Leitura de Peças de Teatro, lemos duas peças curtas deste que é um dos mais influentes nomes da dramaturgia moderna. Pessoalmente, não escondo a importância que Beckett tem para as coisas que penso.

Como uma espécie de brincadeira com os conceitos que aqui convoco, é também em torno de abrigo que a Oficina de Figurinos deste mês se faz. Chamamos-lhe O Princípio de um Casaco e creio que o título é eloquente apresentação da oficina; continuamos a querer responder à vontade de transformar em símbolo tudo o que se coloca em cena. Atenção, embroa se realize dias 16 e 17 de Novembro, as inscrições terminam já no dia 8.

A terminar o mês temos encontro com três jovens cabeças viseenses, que convidamos a pensar sobre mais uma das cartas do professor Agostinho da Silva na segunda edição de Água Nova para as Mesmas Margens. Será no dia 30 de Novembro, só ainda falta confirmar o lugar.

Agora que chego ao fim do texto penso que poderia ter escrito sobre isto mesmo: o fim. Este mês é o mês do último Recital, do último Clube de Leitura, da última Oficina, do último Água Nova para as Mesmas Margens. Depois deste mês ficam a faltar na agenda de CRETA dois espectáculos: um que vem logo no início de Dezembro, escrito e encenado por mim, com as maravilhosas Carla Galvão e Bruna Maia de Moura. Apresentamos o “lamento de ĉiela”, espectáculo em torno da figura histórica do migrante, na Igreja Madre Rita, nos dias 6 e 7 de Dezembro. No final de Dezembro, a recém formada companhia Mochos no Telhado apresenta, resultado de um convite feito a Sofia Moura, aquela que é a sua primeira produção. Luis Miguel Cintra escreveu um dia que por cada nova companhia de teatro que surge deviam acender-se mil estrelas no céu. Deixo aqui a minha expectativa: com o aparecimento da Mochos no Telhado, parece-me, há de nascer uma galáxia inteira.

Esta é a penúltima carta de CRETA anunciando intenções. Como sempre, estamos carentes das vossas respostas. E agradeço todas as generosas palavras que temos recebido desde Maio. Que entusiasmante aventura!

Um abraço,
Guilherme

Sexta Carta de CRETA

10/11/2019Newsletter

Tenho andado com esta ideia na cabeça: a importância de um lugar. Talvez influenciado pela Écloga de Jano e Franco, que ouvimos ao longo do mês de Setembro em CRETA, em que o Roberto Terra sublinhava a migração dos dois pastores que protagonizam o texto, pastores que são projecções de dois dos maiores vultos da poesia portuguesa: Bernardim Ribeiro e Sá de Miranda. A caminhada destes pastores-poetas lembra-me a série de Conversas Vadias de Agostinho da Silva, que orgulhosamente vagueava – e que também lemos este mês que passou em CRETA. E penso, empurrado por estas sombras, na importância de um lugar: de pertencer a um lugar, de ser recebido ou receber num lugar, de habitar um lugar, de chegar a um lugar. Como se constrói uma geografia? E é curioso pensar na própria natureza de um lugar: entre a física e outras dimensões.

De qualquer forma, entre lugares caminhamos. E Outubro começa com, precisamente, algumas ideias sobre a construção de sapatos. Não é completamente desconhecida a história de grandes actores que interrompem a carreira para aprender a fazer sapatos. Por aqui, também nos lançamos a esse desafio dando continuidade à série de oficinas em torno do fazer teatro. O Princípio de um Sapato acontece já este fim-de-semana, em duas sessões. Trata-se de um encontro que tem como fim último compreender o sapato como elemento cénico. Como é que compreendendo um sapato (neste caso alpergatas) pode ser mais ágil a sua utilização em cena? Já antes tínhamos feito este exercício com um vestido – havemos de o repetir com casacos.

Também em Outubro, vamos receber a visita de Bruno Bravo, da companhia Primeiros Sintomas, recentemente premiado na gala dos Globos de Ouro pelo seu belíssimo Tio Vânia. Falar-nos-á do Princípio de um Espectáculo. Ao longo da sua actividade, a companhia Primeiros Sintomas tem vindo a trabalhar em torno da adaptação de textos narrativos para teatro. Será sobre a caminhada entre esses dois lugares que o Bruno nos falará na oficina que acontece no final do mês.

Entre lugares vamos caminhando. Talvez trazendo ainda na sola dos sapatos vestígio do lugar anterior. Havemos de chegar, um dia, a esse extraordinário lugar plural. Por aqui, ficamos gratos por saber que não é uma caminhada solitária.

Um abraço,
Guilherme

Quinta Carta de CRETA

08/26/2019Água Nova Para As Mesmas Margens, Clube de Leitura, Recital de Poesia, Newsletter, Guilherme Gomes

Setembro é sempre o mês da reentrada. Também em CRETA o princípio se aplica. Há sempre encontros por marcar, e, depois de um mês em que vos convidámos a preguiçar, voltamos com um calendário.

Lembro-me bem de ouvir falar em éclogas pela primeira vez. Estava na sala de ensaios do Teatro do Bairro Alto, casa da Cornucópia durante 40 anos. Foi o José Manuel Mendes quem falou disto. Estaríamos a fazer um espectáculo a partir de textos de Gil Vicente e seus contemporâneos, com certeza; as éclogas vieram à baila, e eu perguntei o que eram. Fiquei sempre com a ideia da existência destes textos atrás da orelha. Foi muito evidente, quando começámos a trabalhar no projecto CRETA, que em algum momento haveria de querer ler e partilhar éclogas: dar a conhecer a quem, como eu, ignora; oferecer uma leitura a quem já conhece; estudar, compreender as suas dinâmicas, os seus temas, as personagens. E foi pela internet que comprei um livro com aspecto muito antigo (as folhas frágeis, as páginas descosidas, o tom castanho – e aquele cheiro). Foi aí que encontrámos a Écloga de Jano e Franco, que estreamos no início de Setembro, ali no Fontelo, e apresentamos todos os domingos do mês. Este Recital, que esteve para se chamar “Todo o que te ei contado / Todo cási aconteceu”, é uma criação do Roberto Terra, actor que está sediado em Viseu, que convidámos a fazer a leitura do poema de Bernardim. Para além do encontro com outra pessoa na criação, há o prazer de ver trabalhar com inteligência; e tenho confiança de que o que o Roberto está a fazer não é apenas bom, será importante.

Logo a seguir, voltamos a sentar-nos à mesa. No dia 3, lemos O Despertar da Primavera, de Frank Wedekind, no nosso Clube de Leitura de Peças de Teatro. Sobre este texto escrevi umas palavras que podem ler no site. De qualquer forma, chamo particular atenção para esta sessão do Clube, que acontece no espaço onde a Inês Flor trabalha, e que gentilmente nos cede para estes encontros. Parece-me que este é um daqueles textos que podem mudar uma vida.

No último fim-de-semana do mês, mais propriamente, no dia 28, apresentamos uma novidade. Chamamos-lhe Água Nova Para as Mesmas Margens. Em três encontros, vamos ler e conversar sobre as Sete Cartas a Um Jovem Filósofo, de Agostinho da Silva. Para isso, convidamos oradores que respondem a este requisito: são água nova. Neste primeiro encontro, na Escola Secundária Alves Martins, falamos com a Mariana Pereira e a Rosário Pinheiro.

Escrevo isto e penso: qual será a coerência entre cada uma destas actividades? Que pontes invisíveis ligam o Recital ao Clube de Leitura à Água Nova? Uma resposta me parece possível: Setembro fala-nos de afirmação. De alguém que se reconhece. Do pobre Jano, que parece ter enfim decifrado o seu destino, dos jovens que Wedekind escreveu a lutar contra a herança, dos conselhos de um filósofo para seu aprendiz. É sobre este momento de afirmação, um momento em que, de certa maneira, nos descobrimos, passamos para um outro estado, uma outra atenção. Quando se nos acendem luzes. Em Setembro, em CRETA, é disso que estamos a falar.

Sobre todas estas actividades há muita coisa para ler no site, que vos convido a explorar.
Enfim, reentramos. E este mês promete ser muito entusiasmante!
Obrigado por estarem desse lado.
Como sempre, sintam-se à vontade para responder a esta mensagem.

Um abraço, e até breve.
Guilherme

© Fotografia de Luís Belo

Quarta Carta de CRETA – Um postal de Verão

08/02/2019Newsletter, Guilherme Gomes

Enquanto atravesso esta planície, os primeiros raios de sol iluminam autênticos monstros de pedra que se levantam na paisagem cor de mel. Volto de uns dias de paragem numa pequena povoação na Estremadura espanhola. Faço esta viagem de mota, e isso dá-me a possibilidade de, enquanto viajo, não fazer mais nada senão conduzir e pensar. A mota não tem rádio, eu não levo qualquer género de aparelho que me permita fazer chamadas ou tirar dúvidas no GPS. É um exercício curioso, tentar adivinhar o caminho; de vez em quando encostar na berma com a impressão de que os últimos quilómetros foram na direcção errada. Mas, portanto, viajo sempre pensando noutra coisa que não o vento que faz, ou a chuva que se adivinha. Vou sonhando, fazendo histórias, assistindo a diálogos entre personagens que alguma coisa me inspira. E foi num destes sonhos, olhando para um destes monstros de pedra, que pensei em Eyolf. Compreendi o fascínio pela Mulher dos Ratos, pus-me a imaginar o seu poder hipnótico, porque hipnótica é a paisagem. E a extraordinária contradição desta visão que é ao mesmo tempo bela e consumidora. Olhar para esta planície, para estes montes, poder ver como é belo, e pensar: também isto me pode desgraçar. Parece-me tornar evidente a complexidade da experiência. Nem tudo é evidente; na verdade, pouca coisa o é. Não é um sorriso ou uma gargalhada garante de felicidade, não é uma criação extraordinária garante de um espírito efusivo. E isso, tendo a crer, é coisa que se percebeu no clube de leitura que fizemos este mês, em que lemos “O Pequeno Eyolf”, de Ibsen. No clube de leitura, e nos momentos extraordinários que passámos na plataforma do Funicular, no início do mês, enquanto participávamos no Festival MESCLA. Abordar todos aqueles autores trouxe-me um pensamento um pouco mais variado em relação aos assuntos que me ocupam a cabeça. Afinal, esse é o maior contributo que CRETA pode dar a todos os que com CRETA se cruzam: a pluralidade, a heterodoxia, um vislumbre da complexidade da experiência humana. Tudo isto, através de textos da dramaturgia mundial, de textos da poesia portuguesa, e de encontros que um espectáculo ou uma oficina ou um debate podem provocar.

Em Agosto, CRETA não tem nenhuma actividade. Preparamos os meses que se seguem. Em Setembro retomamos com um Recital em torno da “Écloga de Jano e Franco”, de Bernardim Ribeiro, mais um clube de leitura (lemos o “Despertar da Primavera”, de Frank Wedekind), e uma conversa em torno de uma das “Sete Cartas a um Jovem Filósofo”, de Agostinho da Silva. E não fazemos nada em Agosto porque não vos queremos sobrecarregar. Haverá muito que fazer neste mês. Começa, não tarda, a Feira de São Mateus, é certo; há uma lista inteira de livros para ler, não nego; mas não posso deixar de partilhar um título: ofereceram-me há uns tempos um livro escrito pelo senhor Paul Lafargue, um jornalista nascido em Cuba, genro de Karl Marx. O livro do senhor Lafargue chama-se “O Direito à Preguiça”. Eu sei que é difícil ceder, eu próprio confirmo que a cabeça está sempre a fervilhar. Mas, nos dias que passei na pequena povoação espanhola, fiz o exercício de tentar não fazer nada. É uma espécie de trampolim; estamos carentes desse não fazer nada. E é muito difícil praticá-lo: há sempre coisas pequenas que se acumulam nos ombros, e temos o telefone com o email, o Facebook, o Instagram. Fica o desafio: pelo menos num destes dias usufruir do direito que Lafargue anuncia.

Bom, os monstros de pedra já estão todos iluminados. Fez-se dia, e eu ainda estou na planície.

Como sempre, sabem que podem responder a este email.

Um abraço, e alguma preguiça.
Guilherme

© Fotografia de Guilherme Gomes

Terceira Carta de CRETA

07/01/2019Newsletter, Guilherme Gomes

E, num instante, esta é já a terceira carta que vos dirijo. Corresponde a dois meses de CRETA, e é espantoso ver como em dois meses tanta coisa pode acontecer. Em dois meses conheci pessoas, e com elas comecei a trocar ideias; em dois meses houve espaço para surpresas e confirmações; em dois meses até para quezílias houve tempo.

Estou a escrever-vos esta carta e penso numa coisa que não me sai da cabeça nos últimos meses: como nasce uma palavra na boca de alguém? Como se forma? O que segura a palavra – e como se tem acesso ao seu esqueleto, ou à sua estrutura, se a quisermos ver como construção? E a palavra surge como uma espécie de poço, de onde se recolhem todos os sentidos. E há a palavra segredo, a palavra amor, a palavra paz, a palavra infinito, a palavra pai, e a palavra mãe, há a palavra dor, e a palavra traição, a palavra sofrimento. Palavras que trazem consigo o mundo inteiro; que formam pontes entre mim e aquele que me ouve, ou lê. Comunicam. Palavras preciosas, talvez fosse possível prescindir de grupos de palavras: deixar uma palavra só, e que ela dissesse. Talvez fosse possível carregar uma palavra de tanto significado, que dizendo pouco traduzimos tudo. A poesia é isto, afinal. E no cinema, são referência para mim os filmes de mestres nórdicos, em que a economia da palavra é um jogo de tensão tão forte que nos intimida. Lembro-me de um filme, em particular, por se chamar “A Palavra”, de Carl Theodor Dreyer. Fica a sugestão.

Falo da palavra porque é essa a ponte entre nós neste preciso momento, enquanto estão a ler este texto. E porque ao longo destes dois meses tem sido em torno da palavra o trabalho que vamos desenvolvendo. Em Junho, depois de fazermos a segunda sessão da Oficina de Figurinos em torno do Princípio de um Vestido, conversámos com Luis Miguel Cintra sobre encenação, aproveitando a presença do encenador em Viseu para os ensaios de ERMAFRODITE, que apresentámos numa curta carreira de três récitas no final do mês. Dialogar com o Luis Miguel soa-me sempre a desafio. O que ele nos propõe, até na direcção de actores, é por vezes difícil de compreender – e uma tentativa de questionar todas as regras. Uma grande aprendizagem é ver como Luis Miguel Cintra não se conforma com soluções que já encontrou; não faz atalhos, procura sempre fazer o caminho inteiro de forma honesta e cheia de questões, tenho a impressão de que como se estivesse sempre a começar. ERMAFRODITE foi um desafio a todos os níveis, e fico muito feliz por termos apresentado este objecto – nem sei ao certo como lhe chamar – em Viseu. Ele não se integra realmente no que já conhecemos.
Ainda em Junho, fizemos a apresentação formal do projecto CRETA. E encontrámo-nos pela primeira vez para ler em conjunto, na primeira sessão do Clube de Leitura. Lemos “Pai”, de August Strindberg, e foi uma noite linda, devo dizer a quem não pôde estar!

Em Julho, o nosso percurso será um bocadinho mais intenso e curto: a convite do Município de Viseu, participamos no festival Mescla com um conjunto de conversas em torno de poesia. No fundo, vamos olhar para os autores que abordamos ao longo do ano nos Recitais de Poesia para dedicar algum estudo que não será possível tornar público quando fazemos os recitais; e vou partilhar a obra de alguns outros poetas que ressoam, para mim, de maneira particular. Vou contar com a presença dos restantes actores do Teatro da Cidade nestes encontros, bem como da Sofia Moura e do Roberto Terra. Serão encontros curtos, de 40 minutos, todos dos dias, entre 2 e 7, às 18h.

Depois, temos encontro marcado para mais um Clube de Leitura, no dia 16. Desta vez, vamos ler “O Pequeno Eyolf”, de Henrik Ibsen, uma peça que proponho para o Clube de Leitura precisamente porque não conhecia. Li-o um destes dias, e é um texto muito bonito sobre a Responsabilidade Humana – tema a que não podemos ser alheios quando nos chegam fotografias e notícias de gente como nós que morre nas margens de um rio, ou no areal de uma praia – ou quando assistimos a uma alteração do clima tão evidente e transformadora como a que atravessamos. Tenho a certeza de que este Clube de Leitura será tão estimulante como o anterior. Já podem ter acesso ao texto. Se não conseguirem estar presentes, façam-se representar por amigos que eventualmente encontrem interesse em serões de discussão como o que tivemos.
E é isto.

Tenho recebido respostas a estas cartas; não se inibam de escrever de volta, prometo que respondo!  Obrigado a todos por darem a impressão de que CRETA acontece em tão boa companhia.

Um abraço,
Guilherme

© Ilustração de L Filipe dos Santos

Conferência de Imprensa: CRETA, um labirinto em Viseu

06/17/2019Uncategorized

CRETA tem como subtítulo laboratório de criação teatral, porque pretende ser um projecto com as características de um laboratório, isto é, um lugar de experimentação e descoberta”, é desta maneira que Guilherme Gomes, membro do Teatro da Cidade, director do projecto, apresenta CRETA – laboratório de criação teatral, promovido pelo Teatro da Cidade e apoiado pelo Município de Viseu, através do plano VISEU CULTURA. Até ao final de 2019, CRETA apresenta espectáculos de teatro, recitais de poesia, oficinas de figurinos, encenação, e produção, clubes de leitura, e encontros-debate, cumprindo os vectores a que o Município de Viseu procura responder “programação, criação e formação”, como reforçou Jorge Sobrado, vereador da cultura do Município de Viseu, que acrescenta que “não há ambientes culturais saudáveis que sejam fechados, um ambiente cultural e artístico estimulante é um lugar de diálogo, aberto. Para usar a metáfora em que assenta o projecto CRETA, é um labirinto com entradas e saídas, ou, pelo menos, soluções”. Desta forma, para além de actores locais, CRETA convida criadores que não estão sediados em Viseu a dialogar com a cidade. É o caso da companhia Primeiros Sintomas, uma companhia de teatro sediada em Lisboa, com um percurso sólido, afirmando-se como uma das companhias de referência da actualidade, que apresentará em Viseu, no mês de Outubro, o espectáculo “A História Assombrosa de Como o Capitão Michel Albam Perdeu o seu Braço”, do Polo Cultural das Gaivotas e Espaço Alkantara, que orientarão uma Oficina de Produção na segunda metade do ano, e de Luis Miguel Cintra, que está em Viseu para criar o primeiro espectáculo produzido pelo projecto CRETA, “Ermafrodite”, um espectáculo-conferência sobre o casamento, com textos de Camilo Castelo Branco, colados pelo próprio Luis Miguel Cintra. O espectáculo estreia no dia 27 de junho, na Incubadora do Centro Histórico, em Viseu.

Jorge Sobrado sublinhou ainda que este projecto parece derrubar as fronteiras entre o público e o teatro, convidando o público a dialogar com os criadores, ou os bastidores da criação. “CRETA é um projecto teatral indirectamente, uma vez que pretende contribuir para enriquecer o caminho que leva à criação de um espectáculo, mais ainda do que fazer espectáculos, tentar com isso contrariar a mediocridade que se vai sentindo um pouco por todo o lado. Não que saibamos fazer algo melhor, mas confiando que através do diálogo podemos chegar a essa solução”, confirma Guilherme Gomes, na véspera do primeiro clube de leitura, em que se abordará a obra do dramaturgo August Stindberg. “Formam-se criadores, mas também se forma público”, comenta o vereador.

A primeira manifestação de CRETA aconteceu em Maio, com o recital dedicado à obra de Ruy Belo; o mês de Junho fica marcado pela estreia de “Ermafrodite”, encenado por Luis Miguel Cintra; em Julho CRETA marcará presença no festival Mescla, promovido pelo Município de Viseu; para além das actividades regulares, Setembro destaca-se pelo segundo recital de poesia, dedicado às palavras de Bernardim Ribeiro; em Outubro promove-se a ida da companhia Primeiros Sintomas a Viseu; Novembro é o mês do terceiro recital de poesia, dedicado ao período Romântico; em Dezembro estreiam-se duas criações de CRETA: “lamento de ĉiela”, com texto e encenação de Guilherme Gomes; e “Península”, uma criação de Sofia Moura.

© Texto de Guilherme Gomes. Fotografias de Luís Belo

Segunda Carta de CRETA

06/02/2019Newsletter, Guilherme Gomes

Olá,
Escrevo directamente da Primavera, sentindo os anúncios do Verão. Não é raro encontrar na literatura, e nas conversas tidas ao longo dos dias, referências à ligação que existe entre o tempo quente e o tempo do amor. Há de chegar o Verão, e com ele todos os cuidados. Junho é um mês em que tudo isto começa a ganhar forma, afinal é o mês da transição de uma coisa para a outra; e em CRETA, usamos a circunstância para pensar.

O mês começa com a segunda sessão da Oficina de Figurino: O Princípio de um Vestido, com a orientação da Rosa Cotinha, logo no dia 1, das 15h às 19h, na SALA 5 – Edifício Centro Comercial Ecovil – Rua do Comércio, n.º 58. Numa curta correspondência que troquei com Rosa, falámos sobre o caminho que se faz para chegar a um vestido: eu contava-lhe que procurava no que visto sintomas de uma espiral; ela respondia-me com o Homem de Vitrúvio. Imagino que tudo isto passe pela ideia de que para vestirmos uma pessoa temos de a medir, e medir uma pessoa é um gesto carregado de simbolismo; uma oportunidade para pensar sobre harmonia, sobre a forma do nosso corpo, a nossa proporção, a nossa, apesar de tudo, reduzida dimensão física. Enfim, propomo-nos pensar sobre o figurino, acabamos com ideias existenciais.

Um processo que sempre achei fascinante é o de ler em conjunto, descobrir em conjunto os segredos que guarda um texto. Vamos conhecendo, enquanto espectadores, algumas formas, por vezes contrastantes, de fazer teatro. Este Clube de Leitura é sintoma de um género de abordagem ao exercício teatral: um processo que coloca o texto no centro do trabalho; que reconhece o tom e as características de cada obra e nos permite um mergulho no pensamento do autor, para o qual, enquanto criadores, convidamos o público. No dia 18 de junho inauguramos o Clube de Leitura de Peças de Teatro; uma actividade que abrimos ao público geral para estudarmos alguns textos da dramaturgia mundial. Este mês estudamos O PAI, de August Strindberg; uma peça em que assistimos à descrição de um ciúme, das dúvidas sobre a fidelidade numa relação. Em breve temos novidades sobre isso no nosso site – vamos lembrar-vos por email, não se preocupem. De qualquer forma, fica já a data: 18 de junho, às 21h, na Incubadora do Centro Histórico (Viseu).

Maio foi um mês inaugural em CRETA, com o início das suas actividades. Junho não o será em menos medida, já que é este mês que estreamos a primeira criação teatral do projecto CRETA: uma encenação de dois textos de Camilo Castelo Branco, por Luis Miguel Cintra – que é um mestre para mim, e um amigo com confiança bastante para aceitar a proposta de encenar algo neste contexto. Ao espectáculo, que procura ser uma palestra, chamou-se ERMAFRODITE. Não é erro de transcrição, é mesmo assim: uma mistura de Hermafrodita e Afrodite. A questão do amor, com que abri este texto, lá está. ERMAFRODITE é um espectáculo sobre o casamento enquanto instituição. Apresenta-se de forma cómica, com a ironia de Camilo, a que se acrescenta o olhar ousado e igualmente irónico de Luis Miguel Cintra. Eu faço parte do elenco, ao lado do meu companheiro de Teatro da Cidade João Reixa, e o espectáculo estará em cena nos dias 27, 28, e 29 de junho na Incubadora. E a propósito desta criação, Luis Miguel Cintra vai partilhar com quem queira ouvir algumas ideias sobre encenação, no dia 15 de junho, Incubadora. É mais uma das Oficinas, desta vez de Encenação. E parece-me uma oportunidade única para ouvir um dos que mais influenciou o teatro português nos últimos anos. Luis Miguel Cintra é uma referência teatral e intelectual.

Estou capaz de vos aconselhar a guardar na agenda estas datas; mas sei que sou suspeito.

Obrigado a todos os que nos vão acompanhando; a todos os que viram o recital “um dia não muito longe não muito perto”, alguns mais do que uma vez; a todos os que participam nas actividadades que promovemos; a todos os que connosco estabelecem diálogo. Afinal, é a falar que a gente se entende; e tenho a impressão de que são os outros que solucionam isto a que chamamos crescer.

Um abraço, directamente desta Primavera com anúncios de Verão,
Guilherme

© Ilustração de L Filipe dos Santos

Resposta a “Carta sobre um vestido”

05/28/2019Oficina de Figurino, Rosa Cotinha

Guilherme,

No renascimento, período de valorização da teoria da Estética, Leonardo da Vinci desenvolveu o desenho, onde o Homem é representado dentro de um quadrado e de um círculo, assim começa o desenho do nosso vestido.

Um vestido é um objeto maravilhoso de uso feminino, pode ser uma peça clássica ou intemporal, símbolo de feminilidade e elegância. É responsável por ditar a moda, traduzir o comportamento e os costumes da sociedade, em todas épocas e lugares.

A essência da costura não se explica numa carta, porém vou dar alguns apontamentos daquilo que penso ser importante. O exemplo da espiral, que referi na nossa conversa, para mim faz imenso sentido pois é um ótimo exercício para a prática da costura. Tendo em conta que o nosso corpo é feito de formas redondas é fundamental desenhá-las corretamente em papel e transpô-las para o tecido. Manejar a máquina e unir as formas requer a agilidade do exercício da espiral.

Fica o convite, para aprender a fazer um vestido.

Um beijo,
Rosa

*Dia 1 de Junho de 2019 acontece a Oficina de Figurino: O Princípio de um Vestido.

Antes das palavras de “um dia não muito longe não muito perto”

05/24/2019Recital de Poesia, Guilherme Gomes, Sofia Moura

Quem, numa tarde de domingo de maio chega ao Museu Almeida Moreira com a expectativa de escutar poesia, recebe, primeiro, um papel. A letras algo pequenas, podem ler-se estas palavras:

“Alguma noite de tempestade terá Francisco Almeida Moreira ficado sentado nesta sala, a lareira acesa, com os olhos ultrapassando as paredes para um sonho acordado. Podemos imaginar que, algum dia, nesta sala, se terá Francisco Almeida Moreira sentido mal; que destas janelas conversou com gente; ou que perdeu algum tempo a reparar como cruza o sol as janelas. Podemos imaginar tudo isto, e podemos estar certos de que nesta sala viveu Francisco Almeida Moreira momentos de íntima felicidade e íntima tristeza. Podemos imaginar a voz que tem a sua casa habitada: o som da lareira, pratos que são pousados na mesa de uma sala distante, o pêndulo do relógio e a campainha a horas certas, o som da caneta que arranha o papel – de vez em quando, o som da chuva nas vidraças. Quanto mundo cabe numa sala!
Ao longo de quatro domingos, esta sala terá uma rotina: à mesma hora se dizem as mesmas palavras, repetem os mesmos gestos, convocam-se as mesmas memórias. Junto-me à Sofia Moura – à sua capacidade de vestir de clareza as palavras – e é Ruy Belo quem nos guia. Esse que nos ensina a repartir a tristeza pelos dias; que faz o elogio dos gestos domésticos, quotidianos. Que despe a máscara para nos relevar as nossas próprias fragilidades. Muitas vezes leio um poema como uma adivinha; os segredos que um poema guarda são mundos inteiros. Ao longo destas sessões, convido-vos a ouvir as imagens que Ruy convoca; a traduzir essas imagens com os vossos próprios olhos; a projectar isso nesta e em todas as salas onde se está e onde se esteve. E pergunto: qual é a voz de uma casa habitada?

– Guilherme Gomes