Décima Terceira Carta de CRETA

05/05/2020Newsletter

As Cartas de Creta, neste momento, existem enquanto podcast. Abaixo fica a transcrição deste episódio.

Por estes lados, não é raro ver da estrada os montes como se fossem ondas do mar. E, em dias de inverno, entre os montes há nevoeiro. Se tiver de evocar uma imagem para ilustrar a memória é esta que escolho: uma paisagem de nevoeiro, onde vemos os cumes de montes, e uma ou outra clareira rápida.

No outro dia dei por mim a pensar na Sé de Viseu. Estava a tentar lembrar-me de um pormenor: de um canto dos claustros, eu vejo uma das torres da catedral. Não sei por que razão, esta é uma das imagens mais presentes da minha memória. Ocorre-me frequentemente sem que me esforce. E sempre que estou pela zona, vou a esse canto confirmar a imagem que dele tenho. É que não sei dizer quantas vezes uma memória não foi imaginação.

Neste momento, algures no Universo há duas sondas chamadas Voyager. Foram lançadas no final dos anos setenta, e estão cada vez mais afastadas do planeta terra. Cada uma delas leva consigo um disco de ouro com músicas, sons do planeta, saudações em várias línguas, alguns exemplos básicos de aritmética, há o som de um bebé a chorar e uma mãe que diz num inglês americano: oh come on now, be a good boy.

Por enquanto, estas sondas são instrumentos de exploração científica. Mas um dia há de chegar em que os seus geradores não vão ser capazes de alimentar o sistema. Nesse dia, estas sondas passam a ser caixas do tempo: uma memória do planeta terra a vaguear pelo universo. E, se um dia forem encontradas, se aqueles que as encontrarem conseguirem ouvir o disco de ouro, não poderão senão imaginar o que seria este planeta: a forma do bebé e da mãe que ouvem; ou quem seriam estas pessoas que falam em nome da humanidade inteira; será que quando ouvirem “Dark Was The Night”, sentem a solidão que é missão da música no disco ilustrar?

Em Maio de 2020, é como se descobríssemos uma das sondas Voyager, e ouvíssemos o disco dourado.

E eu dou por mim a fazer percursos de memória nas duas cidades que melhor conheço: Lisboa e Viseu. Faço o exercício de imaginar qual será o caminho mais rápido entre o ponto A e o ponto B. E imagino mesmo o que é caminhar esse trajecto.

Salto pormenores, inevitavelmente, e misturo dias diferentes no mesmo caminho.

A mesma rua tem dias diferentes quando a atravesso na memória.

Peter Handke, numa das minhas leituras deste período de isolamento, diz-me que toda a formulação, mesmo a formulação de coisas que aconteceram realmente, é mais ou menos uma ficção. Será menos se nos contentarmos com o lembrar vagamente um acontecimento; mais, se tentarmos ir ao pormenor.

Em Maio de 2020 tínhamos previsto começar o projecto CRETA. Mas, mesmo que comecemos a reconquistar, cuidadosamente, as ruas que agora só imaginamos, nós não podíamos ousar convidar-vos para um encontro.

Por isso, pensámos numa alternativa:

Primeiro, propomos o exercício que acabo de descrever, como se ouvíssemos o disco dourado: um exercício de imaginação para lugares concretos, que sabemos que existem, talvez já lá tenhamos estado, e que podemos mais tarde visitar: para isso convidámos a companhia Mochos no Telhado e o João Cachola para escreverem dois episódios de um novo podcast. Chama-se “O Lugar de Onde se Ouve”, para compensar a nossa ausência do “lugar de onde se vê” que é o Teatro. O primeiro episódio é lançado no dia 16, o segundo no dia 23 de Maio.

Mas antes disto, propomos retomar o clube de leitura de peças de teatro. E no dia 12, às 21h, temos encontro marcado para ler textos de Karl Valentin. Não será no estúdio da Inês Flor, mas numa etérea sala online na aplicação Zoom. Valentin é uma referência inevitável no teatro cómico e cabaret. Entre os vários textos que vamos ler há um que se chama “Porque Estão os Teatros Vazios” – o título é oportuno, o conteúdo é eterno. Podem inscrever-se para esta sessão do clube (independentemente de onde estejam) no site do CRETA.

Este mês, portanto, exercitamos a memória e a imaginação, e temos estas interrogações: como é a cidade de que se lembram? E, qual é a maneira mais rápida de ir, a pé, do Rossio à Igreja da Misericórdia, em Viseu; ou do Chiado a Campo de Ourique, em Lisboa?

Esta foi a décima terceira carta de CRETA. As cartas de CRETA são uma mensagem que todos os meses dirigimos a quem assina a newsletter do projecto CRETA – laboratório de criação teatral; um projecto que o Teatro da Cidade mantém em Viseu.
Podem saber um pouco mais em creta.teatrodacidade.pt
Despeço-me, lembrando que podem responder a esta mensagem através do nosso email creta@teatrodacidade.pt.
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Obrigado por ouvirem; até ao próximo mês.

Décima Segunda Carta de CRETA

04/09/2020Newsletter

Esta carta foi escrita para ser gravada. Tentamos simular a experiência por escrito, mas aconselhamos a que ouçam!

(Ouvimos os sinos da igreja tocar uma hora; depois, o canto dos pássaros.)

A passagem do tempo é uma coisa diferente para cada um de nós, não é novidade. E, às vezes, parece difícil entender exactamente a dimensão das coisas no tempo. Na sua Poética, uma das distinções que Aristóteles estabelece entre a Tragédia e a Epopeia é o seu alcance na narração de acontecimentos: uma dura, por assim dizer, mais tempo que a outra. Em Sociedades Primitivas, primeiros apontamentos do que mais tarde chamaríamos teatro serviam como rituais de passagem entre estações do ano. No século XX, Beckett coloca em cena precisamente aquilo que poderíamos entender como um desperdício de tempo, personagens à espera. Não sabemos dizer o que é o tempo, muito menos acordar no que se deve fazer com ele; uma coisa, ainda assim, é inegável: ele passa.

Como nos diz aquele soneto do David Mourão-Ferreira que fala da experiência do tempo:

“E por vezes as noites duram meses / E por vezes os meses oceanos”…

Nesta carta, eu gostava de pensar sobre isto. É que há uns tempos, o Bernardo Souto, que é meu amigo e colega no Teatro da Cidade, falou-me de um conceito que recuperou: uma coisa chamada o calendário cósmico.

(som de chamada)

Bernardo – Gooooood Morning Vietnam!!

(começa música)

Este aqui é o Bernardo. Imagino que já possam adivinhar que é entusiasmante ouvi-lo falar sobre aquilo que o apaixona. Mesmo quando se engana…

Bernardo – … Os últimos raios de sol, aqui no Cacém. Raios que demoraram 13 minutos a percorrer 150 milhões de quilómetros.

Guilherme – Incrível. Não foram 8?

Bernardo – 8?

Guilherme – Não foram 8 minutos?

Bernardo – 8 minutos, sim.

Guilherme – E não 13.

Bernardo – Não, isso fui eu que já estava a baralhar as coisas.

Eu sou o Guilherme Gomes, esta é a décima segunda carta de Creta. E hoje, claro, vamos falar da passagem do tempo. Porquê? Conto mais adiante. Por enquanto, vou querer saber porque é que o Bernardo se lembrou do calendário cósmico.

(fim da música)

Bernardo – Então, eu estou aqui a pensar. Estou aqui parado. E imaginava: se eu fosse cientista e não tivesse nada à minha disposição, sem ser uns livros e alguma internet, e o meu trabalho fosse mesmo estar aqui fechado e pensar sobre alguma coisa que possa mudar a mente de todos os seres humanos… Eu começo a pensar pelo princípio. E o princípio é a origem de quem é que eu sou e de onde venho. E eu quero responder a estas perguntas. E comecei a questionar isto e lembrei-me que já tinha dado isto no sexto ano. Entretanto, fui falar com a minha professora, passados 13 anos, a minha professora de ciências, e ela aconselhou-me a ver a série do Carl Sagan, uma série produzida em 1984, e a ver, sobretudo, o calendário cósmico. Nesse calendário mostra: desde o início do Big Bang até aos nosso dias, ou seja, até ao aparecimento do Homem. O nosso aparecimento… acontece, precisamente… em Dezembro, nos últimos cinco segundos.

(Começa a música.)

O Bernardo entusiasma-se a falar desta descoberta. E eu pergunto-lhe o que é que mais o comove, no meio disto tudo. O que é que o calendário cósmico ensina, e ele diz-me que

Bernardo – A memória… É a única coisa que o ser humano leva consigo até à morte, são memórias.

A memória…

E eu lembro-me de uma noite, ainda criança, no Alentejo, deitado num parque infantil, com o meu pai, a minha mãe e o meu irmão. Era de noite, e o céu enorme. E nós, deitados na relva de barriga para cima, com uma boa parte do universo à nossa frente.

Anos mais tarde havia de aprender que naquela noite estávamos a olhar para o passado.

Que aquilo que o Bernardo disse, sobre os oito minutos que a luz do sol demora a chegar até nós, aplica-se a tudo o que está ali em cima. Estávamos a olhar para pontos brilhantes tal como eram há milhões de anos.

Um desencontro no tempo.

Um desencontro que Italo Calvino tornou muitíssimo interessante numa obra chamada “Todas as Cosmicómicas”. O meu exemplo preferido é o de um conto chamado “Anos-Luz”, em que o narrador nos conta que um dia, ao observar o céu com o seu telescópio, como era seu costume, vê, numa galáxia a cem milhões de anos-luz de distância um cartaz com as palavras: EU VI-TE. Ele sabia que a imagem daquele cartaz tinha demorado cem milhões de anos a chegar até ele, e que aquilo que a pessoa que fez o cartaz viu demorou cem milhões de anos a chegar até ela, portanto o narrador teria de recuar duzentos milhões de anos para perceber o que a pessoa do cartaz tinha visto. E ele lembrou-se. Há exactamente duzentos milhões de anos, nem um dia mais, nem um dia menos, tinha de facto acontecido uma coisa que ele tinha tentado esconder. O conto continua para nos mostrar os mecanismos do narrador para um (podem imaginar que demorado) esclarecimento.

Este conto sempre me fez pensar que um gesto discreto, é um gesto ainda assim. A sorte que o narrador teve em que alguém escolhesse, no meio da vasta paisagem que é o céu nocturo, olhar para ele – ainda por cima no momento em que ele faz precisamente o que não queria que ninguém visse.

Nada em que o calendário cósmico não tenha feito o Bernardo pensar

Bernardo – Nós andamos para a frente sem olhar para trás… Nós caminhamos sem saber o que somos. E, como Carl Sagan dizia (e eu faço disto outra frase), ele dizia que nós precisamos de conhecer os outros planetas para conhecermos melhor o nosso. E eu acho que nós precisamos de conhecer melhor as outras pessoas, melhor o ser humano para nos conhecermos melhor a nós próprios.

A descoberta do Bernardo é a revelação de tanto passado. Chegamos ao universo nos últimos segundos de um ano. Já se passou tanto antes da nossa chegada, infinitamente mais do que aquilo que a humanidade experimentou até agora.

Somos tanto e tão pouco ao mesmo tempo.

Num dos ensaios do Hamlet, no Teatro da Cornucópia, estávamos a tentar compreender as intenções das personagens mais jovens, e alguém se virou para os mais jovens do elenco e disse “Vocês é que podem falar disto, ainda são novos.” Mas o José Manuel Mendes, um dos veteranos da companhia, pessoa de uma inteligência com que eu raramente me cruzei, diz: “Não, eles não conseguem. Ainda não têm distância.”

Talvez a memória do Passado nos permita a distância que a experiência do Presenta não facilita. E talvez esta distância seja boa companheira da reflexão.

Na Alemanha do século XVI, em colégios de jesuítas, o teatro começava a ser usado como ferramenta didática. Este percurso há de culminar na Alemanha do século XX, na proposta de Bertold Brecht de um teatro baseado no distanciamento, para que precisamente se tornasse um contributo para a reflexão.

O distanciamento pode ajudar a pensar.

E a memória, portanto. O saber o que nos antecede pode salvar-nos dos perigos que a soma do poder com a ignorância carrega.

O Bernardo recuou treze anos para se lembrar do calendário.

E Carl Sagan, procurando construir o presente e a possibilidade do futuro, passou a vida a estudar os astros e as estrelas; passou a vida, parece-me, a estudar o passado.

O calendário cósmico dá-nos mais a noção do passado que do futuro. E parece-me, à boa maneira de Aristóteles, não um exemplo de tragédia, mas uma impressionante epopeia.

Mas porque é que estamos a falar de tempo e memória nesta carta?

 (Som de chamada.)

Ana – Estou?

Guilherme –  Alô, Ana? Estou a gravar a décima segunda carta de CRETA. Temos feito uma por mês, quer dizer que este é o 12º mês. Ou seja, o primeiro ano. Passou um ano desde que começámos a dar notícias de CRETA. E eu lembrei-me de um poema; que comecei a pensar que seria sobre a passagem do tempo, mas percebo agora que pode ser sobre a memória. É do David Mourão-Ferreira. Olha só:

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos  E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites   não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

Esta foi a décima segunda carta de CRETA. As cartas de CRETA são uma mensagem que todos os meses dirijo a quem assina a newsletter do projecto CRETA – laboratório de criação teatral; um projecto que o Teatro da Cidade mantém em Viseu.
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Décima Primeira Carta de CRETA

03/25/2020Newsletter

No verão de 2016, numa tarde que já não consigo precisar, eu conduzia a mota em direcção a norte, na Estrada Nacional número 2. Estava a caminho de Chaves, cidade onde ia pernoitar. O dia estava limpo, um dia de sol. Era, afinal, o pico do verão. E ao longe, ali em frente, por cima de Chaves, imagino, começo a ver, branca e elevada, aquela que ainda hoje considero a nuvem mais bonita que alguma vez vi. A nuvem parecia quase sólida, uma gruta flutuante, tão grande e tão densa que se fazia sombra a si mesma.

Encostei a mota, fotografei a nuvem, e continuei o caminho.

Incapaz de ignorar a presença dela, à medida que eu avançava, mais da nuvem conhecia.

E, à medida da sua revelação, o encanto que sentia pela sua beleza começou a transformar-se em receio.

É que aquela nuvem se diluía num céu cinzento. Um tecto negro. E, sobre a cidade de Chaves, eu conseguia distinguir uma cortina de chuva.

Ali estava eu, rapaz no início dos vintes, a conduzir uma mota em direcção a uma tempestade.

De novo, encostei na berma da estrada. Desta vez, não tirei nenhuma fotografia, não queria tirar nenhuma fotografia. Tinha medo, simplesmente. Da mochila tirei um impermeável. No meio da chuva, lá ao fundo, como que ligando por breves instantes a nuvem à terra, eu consegui ver relâmpagos.

Nesta circunstância, inevitavelmente humilde, apertei o impermeável e continuei o caminho.

Começo por contar esta história, por ser uma em que me confrontei com o medo. E, ao confrontar com o medo, confrontei-me com uma imagem um pouco mais clara do que sou, ora, ao ler Simone Weil aprendi que no teatro grego havia esta ideia de que o sofrimento era indispensável para conseguir conhecimento. Bom, para mim, o conhecimento da minha vulnerabilidade, naquele momento, era gritante, e o meu sofrimento era uma nuvem. Aquela nuvem enorme, a sua beleza inédita.

Também agora me sinto esse rapaz nos vintes, na berma da estrada, a olhar para a tempestade.

No outro dia, ao ler a introdução a uma edição de poemas narrativos de William Shakespeare, aprendi que ele os escreveu durante uma quarentena. Entre meados de 1592 e início de 1594, os teatros de Londres fecharam por causa de uma praga. Shakespeare usou esse tempo para escrever “Vénus e Adónis”, o “Rapto de Lucrécia”, e outros longos poemas narrativos. Ele descreve a escrita destes poemas como um exercício que serve para “fazer algo desta hora vazia”, e “manter o lobo afastado da porta”.

Eu li isto, e pensei em nós. Pensei no ano de 2020. Neste momento de distanciamento social, e, num movimento optimista, pensei: como fazer algo desta hora vazia?

Sempre me pareceu que o teatro se faz de coisas indirectas. Desde que comecei a trabalhar, comecei a perceber que o teatro era mais sobre estar com as outras pessoas do que dizer coisas a outras pessoas; tenho a impressão de que esse estar com as outras pessoas, e a forma como estamos com elas, é que diz alguma coisa. Eu não digo que amo ou odeio alguém: mostro-o; passo por isso; e é a qualidade de um olhar que fala por mim, ou algum gesto discreto, um tom; no fundo, uma subtileza.

Se alguma coisa este distanciamento social nos pode ensinar, que seja sobre o seu oposto: a descoberta real do outro. A curiosidade, não só pelas suas ideias, mas pelas subtilezas que fazem as entrelinhas de um diálogo: a maneira como alguém faz determinados gestos, a forma como fala, como soa a sua voz, a forma como escuta, a posição que ocupa para o fazer; para onde olha quando falamos frente-a-frente?

E, de certa maneira, este momento pode provocar-nos a descoberta de qualquer coisa profundamente teatral: talvez tudo isto nos ensine a contracenar com a vida – expressão que roubo ao Luis Miguel Cintra.

Mas seja esta ou outra a descoberta deste momento, o importante é seguir o segundo conselho de Shakespeare: manter o lobo afastado da porta. Porque agora, estamos ainda na Estrada Nacional número 2. Já descobrimos o céu cinzento, intimidante. Tomamos as devidas precauções. Vestimos o impermeável, conduzimos um pouco mais devagar, pelo menos não temos pressa de chegar ao inevitável destino. Mas avançamos, confiantes. Estamos na Estrada Nacional número 2, e talvez agora, como aconteceu no verão de 2016, à nossa chegada, a tempestade já tenha passado.

Décima Carta de CRETA

02/12/2020Newsletter

Qualquer pessoa que se tenha sentado algum dia em frente a uma folha em branco com a missão de escrever alguma coisa sabe o que é isto de medir as palavras. As voltas que um texto dá para se fazer uma frase. A dificuldade de saber como colocar o que pensamos nas palavras certas.
Um dia, num artigo chamado “A Evolução do Pensamento”, dei com a ideia do professor Vladimir Dmitrievich Shadrikov, investigador e académico russo, de que a tradução do pensamento em palavras é um exercício criativo. De que transmitir um pensamento é parecido com descrever um lugar. É preciso como que inventar as palavras. E que ao pensamento que vem antes de haver palavras que o traduzam podemos chamar protopensamento.
Quando uma ideia é muito clara, mas não sabemos como a transmitir, bom, estamos na zona do protopensamento, segundo o professor Shadrikov.
De certa maneira, parece-me que é a esta procura que assistimos num solilóquio. Medir as palavras – uma ideia cara, esta. Dar às palavras uma medida, um peso, um valor. Reconhecer o seu poder.
Um solilóquio tem esta força. Senão vejamos: proponho-vos um exercício de imaginação:

(Som de ondas.)

Estamos a olhar do alto para uma costa rochosa, como se estivéssemos num precipício. Não há muita definição, a imagem divide-se em dois círculos luminosos, intermitentes; e as ondas a avançar sem piedade contra as rochas negras estão desfocadas.
Depois, vemos um par de olhos. Eles é que olham para a costa, eles é que vêem as ondas lá em baixo.  Eles é que estão neste precipício.
A imagem das ondas foge-nos.
E, então, uma interrogação…
“…To be or not to be, that is the question…” (“Ser ou não ser, é isso a questão”)
Agora sim. A imagem torna-se clara, vemos uma pedra grande, na praia de pedra escura. Vemos uma onda como que abraçando a pedra. Depois, vemos um homem debruçado sobre um parapeito. Loiro, em pose, um anel em cada mão, as mangas da camisa largas, tem um punhal embainhado à cintura.

Está a três quartos, foca o olhar em lugar incerto.
Parece estar só.
“… And by a sleep to say we end |The heart-ache and the thousand natural shocks |That flesh is heir to: ‘tis a consummation |Devoutly to be wish’d. To die, to sleep;…”
Estamos a olhar para Laurence Olivier, a ouvi-lo dizer o famoso monólogo de Hamlet, sobre ser ou não ser. Vê-lo nesta circunstância torna claro o que se passa com a personagem. Ao perguntar “ser ou não ser”, Hamlet está a pesar o seu suicídio.
E em determinado momento, ele desembainha o punhal.
Quando o faz, Hamlet fecha os olhos, fecha a boca. O monólogo continua como se ouvíssemos o seu pensamento. A cena cresce, com o nosso olhar cada vez mais próximo da cara do príncipe, com a argumentação que faz cada vez mais determinante para o gesto derradeiro.

Mas heis que uma ideia…
“… perchance to dream…”

Afastamo-nos, os olhos abrem-se. Hamlet está deitado no parapeito. O punhal na mão.
O tom do discurso muda. Deixou de fazer sentido, a morte. E nós temos a sensação de que ele percebe que não é esta a solução para a sua tragédia.
Hamlet assume uma postura hirta, aparentemente racional, céptica, desiludida. E, sem grande entusiasmo, ele afasta-se do precipício.
“… And enterprises of great pitch and moment |With this regard their currents turn awry |And lose the name of action.”

 Esta é a descrição de um excerto do filme “Hamlet”, dirigido e protagonizado por Laurence Olivier em 1948 a partir do texto com o mesmo nome, escrito por William Shakespeare em 1600.
Solilóquio é uma palavra estranha, mas facilmente se desmistifica. No fundo serve para nomear um texto em que a personagem fala sozinha.
Como eu, agora. Se, por um acaso, dessem comigo a fazer esta gravação, o que veriam era um rapaz sozinho numa sala, com auriculares nos ouvidos, muito concentrado a ler para um microfone.
Mas há uma coisa bonita (e útil) num solilóquio: assistimos a alguém que diz em voz alta uma série de argumentos sobre algo por que está a passar; ou sobre alguma coisa que está a sentir; ou uma ideia que tem.
Em todos os casos, parece-me que um solilóquio é o sintoma de um pensamento. E isto entusiasma-me porque me parece uma espécie de ensaio para o diálogo ou para a acção. Como se assistíssemos ao momento do estratega que prepara uma batalha, ou faz o balanço de uma derrota ou de uma vitória.
Quando penso em solilóquios, é o nome de Shakespeare que me vem à cabeça. Assistimos a tantos momentos destes nas suas peças. Momentos de intimidade entre a personagem e o público.
Ouvimos este que é, provavelmente, o solilóquio mais conhecido da história do Teatro, mas propunha ler-vos a primeira fala da peça Ricardo III, um outro solilóquio, numa tradução feita por Eduarda Dionísio, Maria Adélia Silva Melo e Luis Miguel Cintra, editada pela Difel.

Ouve-se o livro ser folheado.
Lê primeira fala de “Ricardo III”.  

O solilóquio com que Ricardo abre a peça é o exemplo perfeito do caminho, e da exposição, de um pensamento.
Este homem é um estratega, e sabemo-lo porque o vemos medir os seus planos. E ao mesmo tempo, podemos adivinhar a sua tragédia, a marca que o define, a sua deformidade, a rejeição de que é alvo – os cães que ladram quando passa…
Parece-me que este solilóquio sustenta a contenção nos diálogos que se seguem. As palavras saem medidas porque houve este momento.
Começar uma peça com o balanço das intenções do protagonista feito pelo próprio, parece-me engenhoso. Entramos como que no meio da festa. E convidados pelo protagonista. Como com Hamlet, somos cúmplices, já, das suas intenções.
A partir de agora, podem falar por meias palavras, porque fizeram de nós bons entendedores.

Pela minha parte, normalmente é a caminhar que me ponho em solilóquios. É quando arrumo ideias, refaço discussões, planeio uma argumentação, vislumbro a maneira de traduzir por palavras os pensamentos.
Caminhar ajuda-me a pensar.
Os meus solilóquios na vida real, nunca acontecem num precipício, ou na soleira de uma porta, ou na sombra de uma esquina. Acontecem, muito banalmente, enquanto caminho Avenida Almirante Reis abaixo, ou quando estou a caminho do metro – medindo as palavras à luz clara da manhã…

Eu sou o Guilherme Gomes, e esta foi a décima carta de CRETA. Despeço-me, lembrando que podem responder a esta mensagem através do nosso email creta@teatrodacidade.pt.
As músicas usadas nesta gravação vêm do site bensound.com.
Obrigado por ouvirem; até ao próximo mês.

Nona Carta de CRETA

12/31/2019Newsletter

Olá,

Escrevo de pé, em frente a uma porta fechada. Porque, em princípio, para todos os labirintos há um fim. Afinal, cada labirinto é um enigma, um problema que se coloca, e a chave da sua resolução alguém a guarda, ou em algum momento se encontra. No caminho que percorremos, neste labirinto de CRETA, chegámos aqui: uma porta, o fim de um percurso. Enfim solucionado, podemos pensar sobre o caminho que escolhemos fazer.

2019 foi um ano transformador. Desde que CRETA apareceu, em Maio, aprendi um mundo de coisas novas. Vocês mo ensinaram. E, se alguma coisa posso dizer, eu agradeço.

Agradeço à Ana Seia de Matos, ao Luís Belo, ao Luis Miguel Cintra, à Carla Galvão, ao João Reixa, à Bruna Maia de Moura, à Nídia Roque, ao Rui Seabra, ao L Filipe dos Santos, ao Rui Pêva, à Sílvia Duarte, à Sofia Moura, ao Dennis Xavier, à Rosana Baena, à Guida Rolo, ao Roberto Terra, à Mariana Pereira, à Rosário Pinheiro, ao Gonçalo Alegre, à Sónia Sobral, ao Jorge Fraga, ao André Teixeira, ao Francisco Poppe, à Gabriela Coutinho, a Loff Olufson, ao Rafael Lopes, à Rita Camões, à Vanessa Parauta, ao Bruno Bravo, à Ana Alves, à Rosa Cotinha, e à Rita Cabaço por terem participado na programação de CRETA de forma mais ou menos directa, contribuindo para que o projecto fosse o que foi.

Também às instituições que se associaram a CRETA, deixo o meu agradecimento. Nomeadamente o Município de Viseu, cujo apoio atribuído através do programa Viseu Cultura, e da mediação de contactos com os Museus Municipais, foi fundamental para que CRETA existisse.

E a todos os que se juntaram a nós, na construção deste percurso, obrigado.

Chegados aqui, penso neste movimento de construção a tantas mãos. Que coisa extraordinária, olhar por cima do ombro, ver que para trás o caminho ficou iluminado; olhar para o chão e reparar que ao lado da marca dos meus passos encontro a marca dos vossos.

Mas chegámos a uma porta. Como no Teatro, porque estamos num labirinto, esta pode ser uma porta falsa; perceberemos então, que o caminho valeu pelo caminho, que a consequência deste percurso é a marca que deixamos no chão, e o corredor iluminado. Estendo a mão para a porta, confortado pela ideia de que, se a porta for falsa, pelo menos o caminho até aqui chegar foi de uma grande riqueza. Faço rodar a engrenagem da fechadura, a porta cede, do outro lado um corredor ainda. Talvez seja este o segredo de CRETA, aquele em que Dédalo se enredou, a cada promessa de solução, um novo caminho por percorrer.

Em 2020 continuaremos a caminhada que em 2019 começámos. Optei por dedicar o próximo ano a pensar sobre a passagem do Tempo através da programação de CRETA. E sei que no tempo de um ano estaremos de novo em frente a uma porta, com a incerteza ainda do que para lá da porta estará. Nesse momento olharemos sobre o ombro, outra vez, e vamos poder ver com amizade o que agora ainda é futuro. Haverá, no final de contas, melhor presente?

Atrevo-me a desejar a todos os que estão a ler estas palavras, votos de um novo ano repleto de inquietação. Acima de tudo, inquietação. Uma nova década inquieta. E que essa inquietação nos convoque o pensamento.

Retomamos as actividades de CRETA em Maio de 2020.
Até lá, vamos dando notícias.
Um abraço, e até já!
Guilherme

Oitava Carta de CRETA

12/02/2019Newsletter

Estendo a mão e já os meus dedos ultrapassam a fronteira. Sendo esta uma das últimas cartas de CRETA, chegando nós ao fim do ano, e, com isso, ao fim de CRETA, talvez se espere que apresente alguns números: qual o alcance do projecto, quais as actividades que fizemos, que retiramos de tudo isto. Mas, francamente, acho mais importante falar de fronteira. E parte porque Dezembro é a fronteira entre este e o próximo ano, e porque em Dezembro as fronteiras alimentam o que em CRETA se passa.

Portanto, retomo: estendo a mão e já os meus dedos ultrapassam a fronteira. Estou no meio de uma estrada, a ponta dos meus dedos em Espanha, meu corpo inteiro em Portugal. O mesmo sol ilumina este lado e aquele. Nada nos meus dedos indica que estão em lugares diferentes. Ainda assim, partindo meu corpo, uma fronteira. E, para além de necessidades administrativas, pergunto: o que faz uma fronteira? Porque existe uma fronteira? Mesmo as fronteiras do corpo, onde começo? Onde termino? Ou serei do tamanho do que vejo, ao jeito de Pessoa?

Pergunto isto porque sei que, logo no início de Dezembro, nos dias 6 e 7, uma migrante chamada Ĉiela, há de morrer numa fronteira. Podemos vê-lo no espectáculo lamento de ĉiela, que escrevi e encenei. A interpretação é de Carla Galvão e de Bruna Maia de Moura. Não posso deixar de pensar que em algum momento Ĉiela tem de fugir precisamente por haver fronteira, e que Ĉiela morre precisamente porque há fronteira. E que no teatro, como o poderão sentir na Igreja Madre Rita, há fronteiras, limites evidentes.

E é na fronteira de si mesmas que Sofia Moura e Rosana Martínez Baena fazem Península, no final de Dezembro. Um espectáculo criado a partir da sua condição de vizinhas peninsulares. Imagino que também elas perguntem o que as distingue, se o mesmo sol as ilumina. Curiosa reflexão, esta, em que duas pessoas vêem a fronteira que as separa diluída por uma outra. Afinal, muito líquido é este conceito. E talvez seja como diz a canção: é mais o que nos une que aquilo que nos separa. Península será a primeira produção da companhia Mochos no Telhado. Algum dia assistiram ao nascimento de uma Companhia de Teatro?

Da fronteira levanto o braço, aceno-vos com amizade. Aqui estamos, por aqui andámos, esperamos, do outro lado da fronteira, continuar a construir este projecto.

Até breve.
Um abraço,
Guilherme

Sétima Carta de CRETA

11/03/2019Newsletter

Quem cuida dos imortais? Dos imortais guerreiros, dos imortais problemas, das imortais expectativas. Quem cuida dos imortais como quem diz quem os abriga, mas também, quem repara que os imortais existem sequer.
Passei os últimos meses a pensar em Miguel Ângelo, pensamento que culmina na leitura da sua biografia escrita pelo professor Agostinho da Silva. Enquanto Miguel Ângelo pintava, a portas trancadas, o tecto da Capela Sistina, quem cuidava desta imortal força?
“Quem cuida dos imortais?” passa a ser, bem vistas as coisas, uma pergunta importante. Quem cuida da imortal graça, ou da imortal confusão, quem cuida da imortal natureza, quem cuida das imortais nuvens e dos imortais vales?
Talvez os poetas.
Tudo isto porque Jorge Fraga decidiu chamar imortais ao recital que apresenta em CRETA. Que ideia feliz. É do seu recital, pelo menos do guião que Fraga construiu, que retiro esta questão. Jorge Fraga e os seis leitores que a ele se juntam para o recital são cuidadores de imortais ideias, imortais palavras, imortais sentimentos. Também a casa onde concretizam este cuidar parece casa de imortais. A Casa das Águias, ali perto da Cava de Viriato, é o palácio dos imortais durante todas as tardes de domingo de Novembro.

Numa visita a Paris, decidi fazer o percurso entre a casa de Samuel Beckett e o estúdio de Alberto Giacometti como imaginei que Beckett o faria: a pé. Cruza-se, no caminho, o cemitério de Montparnasse. Jean Genet disse sobre as esculturas de Giacometti que eram mortos caminhando. Todas estas ideias somadas, gosto de pensar que foi com discretos imortais que Samuel Beckett lidou toda a sua vida. Os seus estranhos diálogos, a sua inóspita circunstância. Beckett, que tinha Joyce como mestre e referência, acabou por contrariá-lo: foi pela subtracção que trabalhou, parece que procurando esboçar a essência humana (mais uma imortal). No dia 5 de Novembro, no Clube de Leitura de Peças de Teatro, lemos duas peças curtas deste que é um dos mais influentes nomes da dramaturgia moderna. Pessoalmente, não escondo a importância que Beckett tem para as coisas que penso.

Como uma espécie de brincadeira com os conceitos que aqui convoco, é também em torno de abrigo que a Oficina de Figurinos deste mês se faz. Chamamos-lhe O Princípio de um Casaco e creio que o título é eloquente apresentação da oficina; continuamos a querer responder à vontade de transformar em símbolo tudo o que se coloca em cena. Atenção, embroa se realize dias 16 e 17 de Novembro, as inscrições terminam já no dia 8.

A terminar o mês temos encontro com três jovens cabeças viseenses, que convidamos a pensar sobre mais uma das cartas do professor Agostinho da Silva na segunda edição de Água Nova para as Mesmas Margens. Será no dia 30 de Novembro, só ainda falta confirmar o lugar.

Agora que chego ao fim do texto penso que poderia ter escrito sobre isto mesmo: o fim. Este mês é o mês do último Recital, do último Clube de Leitura, da última Oficina, do último Água Nova para as Mesmas Margens. Depois deste mês ficam a faltar na agenda de CRETA dois espectáculos: um que vem logo no início de Dezembro, escrito e encenado por mim, com as maravilhosas Carla Galvão e Bruna Maia de Moura. Apresentamos o “lamento de ĉiela”, espectáculo em torno da figura histórica do migrante, na Igreja Madre Rita, nos dias 6 e 7 de Dezembro. No final de Dezembro, a recém formada companhia Mochos no Telhado apresenta, resultado de um convite feito a Sofia Moura, aquela que é a sua primeira produção. Luis Miguel Cintra escreveu um dia que por cada nova companhia de teatro que surge deviam acender-se mil estrelas no céu. Deixo aqui a minha expectativa: com o aparecimento da Mochos no Telhado, parece-me, há de nascer uma galáxia inteira.

Esta é a penúltima carta de CRETA anunciando intenções. Como sempre, estamos carentes das vossas respostas. E agradeço todas as generosas palavras que temos recebido desde Maio. Que entusiasmante aventura!

Um abraço,
Guilherme

Sexta Carta de CRETA

10/11/2019Newsletter

Tenho andado com esta ideia na cabeça: a importância de um lugar. Talvez influenciado pela Écloga de Jano e Franco, que ouvimos ao longo do mês de Setembro em CRETA, em que o Roberto Terra sublinhava a migração dos dois pastores que protagonizam o texto, pastores que são projecções de dois dos maiores vultos da poesia portuguesa: Bernardim Ribeiro e Sá de Miranda. A caminhada destes pastores-poetas lembra-me a série de Conversas Vadias de Agostinho da Silva, que orgulhosamente vagueava – e que também lemos este mês que passou em CRETA. E penso, empurrado por estas sombras, na importância de um lugar: de pertencer a um lugar, de ser recebido ou receber num lugar, de habitar um lugar, de chegar a um lugar. Como se constrói uma geografia? E é curioso pensar na própria natureza de um lugar: entre a física e outras dimensões.

De qualquer forma, entre lugares caminhamos. E Outubro começa com, precisamente, algumas ideias sobre a construção de sapatos. Não é completamente desconhecida a história de grandes actores que interrompem a carreira para aprender a fazer sapatos. Por aqui, também nos lançamos a esse desafio dando continuidade à série de oficinas em torno do fazer teatro. O Princípio de um Sapato acontece já este fim-de-semana, em duas sessões. Trata-se de um encontro que tem como fim último compreender o sapato como elemento cénico. Como é que compreendendo um sapato (neste caso alpergatas) pode ser mais ágil a sua utilização em cena? Já antes tínhamos feito este exercício com um vestido – havemos de o repetir com casacos.

Também em Outubro, vamos receber a visita de Bruno Bravo, da companhia Primeiros Sintomas, recentemente premiado na gala dos Globos de Ouro pelo seu belíssimo Tio Vânia. Falar-nos-á do Princípio de um Espectáculo. Ao longo da sua actividade, a companhia Primeiros Sintomas tem vindo a trabalhar em torno da adaptação de textos narrativos para teatro. Será sobre a caminhada entre esses dois lugares que o Bruno nos falará na oficina que acontece no final do mês.

Entre lugares vamos caminhando. Talvez trazendo ainda na sola dos sapatos vestígio do lugar anterior. Havemos de chegar, um dia, a esse extraordinário lugar plural. Por aqui, ficamos gratos por saber que não é uma caminhada solitária.

Um abraço,
Guilherme

Quinta Carta de CRETA

08/26/2019Água Nova Para As Mesmas Margens, Clube de Leitura, Recital de Poesia, Newsletter, Guilherme Gomes

Setembro é sempre o mês da reentrada. Também em CRETA o princípio se aplica. Há sempre encontros por marcar, e, depois de um mês em que vos convidámos a preguiçar, voltamos com um calendário.

Lembro-me bem de ouvir falar em éclogas pela primeira vez. Estava na sala de ensaios do Teatro do Bairro Alto, casa da Cornucópia durante 40 anos. Foi o José Manuel Mendes quem falou disto. Estaríamos a fazer um espectáculo a partir de textos de Gil Vicente e seus contemporâneos, com certeza; as éclogas vieram à baila, e eu perguntei o que eram. Fiquei sempre com a ideia da existência destes textos atrás da orelha. Foi muito evidente, quando começámos a trabalhar no projecto CRETA, que em algum momento haveria de querer ler e partilhar éclogas: dar a conhecer a quem, como eu, ignora; oferecer uma leitura a quem já conhece; estudar, compreender as suas dinâmicas, os seus temas, as personagens. E foi pela internet que comprei um livro com aspecto muito antigo (as folhas frágeis, as páginas descosidas, o tom castanho – e aquele cheiro). Foi aí que encontrámos a Écloga de Jano e Franco, que estreamos no início de Setembro, ali no Fontelo, e apresentamos todos os domingos do mês. Este Recital, que esteve para se chamar “Todo o que te ei contado / Todo cási aconteceu”, é uma criação do Roberto Terra, actor que está sediado em Viseu, que convidámos a fazer a leitura do poema de Bernardim. Para além do encontro com outra pessoa na criação, há o prazer de ver trabalhar com inteligência; e tenho confiança de que o que o Roberto está a fazer não é apenas bom, será importante.

Logo a seguir, voltamos a sentar-nos à mesa. No dia 3, lemos O Despertar da Primavera, de Frank Wedekind, no nosso Clube de Leitura de Peças de Teatro. Sobre este texto escrevi umas palavras que podem ler no site. De qualquer forma, chamo particular atenção para esta sessão do Clube, que acontece no espaço onde a Inês Flor trabalha, e que gentilmente nos cede para estes encontros. Parece-me que este é um daqueles textos que podem mudar uma vida.

No último fim-de-semana do mês, mais propriamente, no dia 28, apresentamos uma novidade. Chamamos-lhe Água Nova Para as Mesmas Margens. Em três encontros, vamos ler e conversar sobre as Sete Cartas a Um Jovem Filósofo, de Agostinho da Silva. Para isso, convidamos oradores que respondem a este requisito: são água nova. Neste primeiro encontro, na Escola Secundária Alves Martins, falamos com a Mariana Pereira e a Rosário Pinheiro.

Escrevo isto e penso: qual será a coerência entre cada uma destas actividades? Que pontes invisíveis ligam o Recital ao Clube de Leitura à Água Nova? Uma resposta me parece possível: Setembro fala-nos de afirmação. De alguém que se reconhece. Do pobre Jano, que parece ter enfim decifrado o seu destino, dos jovens que Wedekind escreveu a lutar contra a herança, dos conselhos de um filósofo para seu aprendiz. É sobre este momento de afirmação, um momento em que, de certa maneira, nos descobrimos, passamos para um outro estado, uma outra atenção. Quando se nos acendem luzes. Em Setembro, em CRETA, é disso que estamos a falar.

Sobre todas estas actividades há muita coisa para ler no site, que vos convido a explorar.
Enfim, reentramos. E este mês promete ser muito entusiasmante!
Obrigado por estarem desse lado.
Como sempre, sintam-se à vontade para responder a esta mensagem.

Um abraço, e até breve.
Guilherme

© Fotografia de Luís Belo

Quarta Carta de CRETA – Um postal de Verão

08/02/2019Newsletter, Guilherme Gomes

Enquanto atravesso esta planície, os primeiros raios de sol iluminam autênticos monstros de pedra que se levantam na paisagem cor de mel. Volto de uns dias de paragem numa pequena povoação na Estremadura espanhola. Faço esta viagem de mota, e isso dá-me a possibilidade de, enquanto viajo, não fazer mais nada senão conduzir e pensar. A mota não tem rádio, eu não levo qualquer género de aparelho que me permita fazer chamadas ou tirar dúvidas no GPS. É um exercício curioso, tentar adivinhar o caminho; de vez em quando encostar na berma com a impressão de que os últimos quilómetros foram na direcção errada. Mas, portanto, viajo sempre pensando noutra coisa que não o vento que faz, ou a chuva que se adivinha. Vou sonhando, fazendo histórias, assistindo a diálogos entre personagens que alguma coisa me inspira. E foi num destes sonhos, olhando para um destes monstros de pedra, que pensei em Eyolf. Compreendi o fascínio pela Mulher dos Ratos, pus-me a imaginar o seu poder hipnótico, porque hipnótica é a paisagem. E a extraordinária contradição desta visão que é ao mesmo tempo bela e consumidora. Olhar para esta planície, para estes montes, poder ver como é belo, e pensar: também isto me pode desgraçar. Parece-me tornar evidente a complexidade da experiência. Nem tudo é evidente; na verdade, pouca coisa o é. Não é um sorriso ou uma gargalhada garante de felicidade, não é uma criação extraordinária garante de um espírito efusivo. E isso, tendo a crer, é coisa que se percebeu no clube de leitura que fizemos este mês, em que lemos “O Pequeno Eyolf”, de Ibsen. No clube de leitura, e nos momentos extraordinários que passámos na plataforma do Funicular, no início do mês, enquanto participávamos no Festival MESCLA. Abordar todos aqueles autores trouxe-me um pensamento um pouco mais variado em relação aos assuntos que me ocupam a cabeça. Afinal, esse é o maior contributo que CRETA pode dar a todos os que com CRETA se cruzam: a pluralidade, a heterodoxia, um vislumbre da complexidade da experiência humana. Tudo isto, através de textos da dramaturgia mundial, de textos da poesia portuguesa, e de encontros que um espectáculo ou uma oficina ou um debate podem provocar.

Em Agosto, CRETA não tem nenhuma actividade. Preparamos os meses que se seguem. Em Setembro retomamos com um Recital em torno da “Écloga de Jano e Franco”, de Bernardim Ribeiro, mais um clube de leitura (lemos o “Despertar da Primavera”, de Frank Wedekind), e uma conversa em torno de uma das “Sete Cartas a um Jovem Filósofo”, de Agostinho da Silva. E não fazemos nada em Agosto porque não vos queremos sobrecarregar. Haverá muito que fazer neste mês. Começa, não tarda, a Feira de São Mateus, é certo; há uma lista inteira de livros para ler, não nego; mas não posso deixar de partilhar um título: ofereceram-me há uns tempos um livro escrito pelo senhor Paul Lafargue, um jornalista nascido em Cuba, genro de Karl Marx. O livro do senhor Lafargue chama-se “O Direito à Preguiça”. Eu sei que é difícil ceder, eu próprio confirmo que a cabeça está sempre a fervilhar. Mas, nos dias que passei na pequena povoação espanhola, fiz o exercício de tentar não fazer nada. É uma espécie de trampolim; estamos carentes desse não fazer nada. E é muito difícil praticá-lo: há sempre coisas pequenas que se acumulam nos ombros, e temos o telefone com o email, o Facebook, o Instagram. Fica o desafio: pelo menos num destes dias usufruir do direito que Lafargue anuncia.

Bom, os monstros de pedra já estão todos iluminados. Fez-se dia, e eu ainda estou na planície.

Como sempre, sabem que podem responder a este email.

Um abraço, e alguma preguiça.
Guilherme

© Fotografia de Guilherme Gomes